domingo, 16 de março de 2008

OPINIÃO - COISAS DA VIDA (XXIII)

Maria e Manel
– Sofia Tello GonçalvesMaria saiu à rua com o seu vestido novo. Novo para ela, porque na realidade tinha sido comprado numa loja de roupa em segunda mão que existia ao pé do seu trabalho. Ela não se podia dar ao luxo de roupa nova, não agora, que a sua vida ia de mal a pior.
Não quis estudar e cedo saiu da casa dos seus pais rumo a uma cidade maior à procura de novas oportunidades. Quando chegou, ficou em casa da Teresa, mas cedo se apercebeu que o modesto apartamento não tinha espaço para ela. Empregada numa loja de terceira, o vencimento mal chegava para pagar o quarto arrendado. Os dias passavam-se e as dificuldades acentuavam-se, com os pais, coitados, reformados de uma terra que há muito já nada dava, sabia que não podia contar. Foi quando conheceu Manel.
Deixou-se levar não pelo amor, mas pela ânsia de ter alguém, uma companhia, porque a vida tão só, custa mais. Não se apercebeu de quem realmente era o Manel, ela apenas via aquilo que ardentemente desejava ver. E, quando ele ficou desempregado e quis ir viver com ela para o seu modesto quarto, Maria pensou satisfeita que seria um passo em frente naquela relação.
Como as despesas aumentavam, e o Manel continuava sem arranjar emprego – porque trabalho há muito – Maria começou nas limpezas. Levantava-se cedo de manhã, por vezes ainda de noite, para apanhar o primeiro transporte que a levava a um escritório de advogados que limpava diariamente. Depois, às oito horas em ponto, abria a porta da loja onde permanecia por largas horas.
Nos últimos tempos, quando chegava a casa já nem encontrava o Manel, que no seu ciclo empregado/desempregado, continuava sem trabalhar.
Manel saiu à rua com a sua camisa nova, comprada pela Maria e oferecida no dia em que celebravam três anos de namoro. Ele, como se encontrava desempregado, não lhe deu nada. Arranjar emprego nos dias de hoje não é fácil, pensava, e também, Maria estava diferente, já não era aquela miúda com vida que tinha conhecido, já não o acompanhava e ele, aproveitava para ir para o café, passar os serões com os amigos. No fundo, sabia que aquela relação já não era o que era. Foi então que conheceu Dália…
Quando Maria chegava a casa, ainda na escuridão pensava, o Manel saiu, coitado, a vida não lhe tem corrido bem, faz-lhe bem estar um pouco com os amigos. O acender das luzes trazia-a à realidade, ainda havia tanto para fazer dentro daquelas quatro paredes, e não parava enquanto não transformava de novo aquele quarto num lar, que partilhava com o seu Manel.
A vida é dura pensava, mas só, é que não!