sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Coisas da Vida (XXVI)

Mais do meu tempo
* Sofia Tello Gonçalves
Vens almoçar? Não, respondi. E jantar, vens? Parei, olhei para ela, sempre fora uma mulher corpulenta que se recusara a dobrar com a idade, mas, as rugas no rosto não mentem e, idade já tinha alguma. Vivia sozinha, dantes, fora uma casa cheia, agora, era ela, o passáro e por vezes as vozes do apoio domiciliário.
Nunca lá vivi, mas cresci lá, a minha casa era ao lado. Habituei-me à sua como se fosse minha, e com o passar do tempo, também era minha. Depois da sua queda, habituei-me a passar por lá de manhã, antes de ir trabalhar. Tinha sempre algo pronto para eu levar.
E jantar, vens? Repetiu a pergunta. O carinho que sinto por ela é infinito, ela foi a minha mão que embala. Claro, respondi. Era a terceira vez que o fazia nessa semana, o facto de me ter divorciado, dava-lhe mais do meu tempo. Senão viesse, já sabia que não comia. Nunca gostou de fazer as refeiçôes sozinha, e a vida pregara-lhe uma partida. Começar o seu dia, sabendo que eu ia jantar, era o seu entretém, sabia que se assim não fosse, o vazio enchia ainda mais aquela casa. Este, era o seu motivo...
Passámos ainda alguns anos nesta rotina, até que um dia, a vida acabou para ela.
Fiquei com o pássaro.
Hoje, sozinha, também já não janto.
Publicado no "Jornal de Nisa"