terça-feira, 4 de novembro de 2008

EVOCAÇÃO DE CRUZ MALPIQUE (I)

Nos signos da leitura *
Na escola juvenil, é essencial que se faça a leitura em voz alta. Primeiro a fará o professor, para emprestar a faísca da vida ao texto escrito, e para servir como que de paradigma aos principiantes da leitura. Sem leitura expressiva, os textos ficam mortos, ou são apenas fonte de bocejos.
Com essa espécie de leitura se abrirá caminho para uma outra, mais expedita, mais funcional - a leitura silenciosa, aquela que, num relâmpago, nos dá a medula duma página de livro, de uma folha de jornal, de um documento erudito, de um relatório científico, de uma carta.
Quem, na escola, se habituou a fazer a leitura expressiva, com seu quê de teatralizada, ficará, depois, em condições de, numa leitura em diagonal e em silêncio, aprender as ideias mestras de qualquer escrito. O tempo urge, e, por isso mesmo, importa numa rápida olhadela ao escrito se lhe capte a ideia nuclear.
Os livros, se acaso pudessem estabelecer diálogo com os homens, lhes diriam: - Por favor, leiam-nos! Sentimo-nos pagos, se nos lerem! Nada mais triste, para nós, do que morrermos virgens da faca, que nos abra as folhas; nada mais desconsolador do que sermos comidos pela traça, sem que a mão dos leitores nos tenha acariciado, sem que os seus olhos nos tenham percorrido, amorosamente, corpo e alma.
Hoje, muitos livros se compram. Nunca, porventura, o movimento editorial foi tão grande. Nunca, porém, talvez, se lesse menos, em atitude de recolhimento, em meditação profunda, e sobretudo de lápis na mão, para anotar os passos que, depois, devem suscitar o nosso comentário escrito, se, para isso, tivermos aptidões. São tantas as solicitações de fora, fazemos vida tão extrovertida, que quase não nos sobra um momento para nos debruçarmos sobre a experiência alheia passada às páginas de um livro.
Compramos os livros, para que conste que não estamos desactualizados. E compramos, sobretudo, os gritados pela última moda. Mas, ou os pomos nas estantes, ou, apenas, os folheamos página aqui, página além, a correr, muito a correr, como quem vai salvar o pai, da forca.
Está bem que preguemos o olhar na TV. Que aproveitemos de todas as informações que a técnica, hoje, nos pode fornecer, e não são elas, ora, tão poucas! Mas excelente seria que completássemos todo esse mundo de informações, com a leitura recolhida. A extroversão tem de ser - deve ser - seguida de uma descida a nós próprios, e a leitura é o processo naturalmente indicado para uma introspecção em profundidade.
Julien Green quem, no seu Journal, faz esta confidência, relativa ao dia 28-XI-1954: " Chez moi, la lecture est une forme de paresse. Je le sais et ne m´en corrige pas".
Não exagerou. A leitura pela leitura, sem meditação da caneta, correndo sobre o papel em branco, é sempre uma forma de preguiça. A leitura só a podemos considerar activa, na medida em que for pesquisa de problemas, para resolvermos de conta própria. Com efeito, o que mais interessa, ao leitor laborioso, não é a solução acabadinha, que o livro lhe dá, mas os problemas que lhe suscita. O filósofo dizia, no consabido entinema: "penso, logo existo". O leitor, que o é de verdade, dirá: "penso por escrito, sobre o que leio, logo existo".
Toda a leitura será trampolim para darmos o nosso salto a maior distância e profundidade. Mas, esse salto só o poderemos dar, no caso de reflectirmos, a fundo, sobre a problemática que ela nos oferece. E a reflexão profunda exige que a caneta nos partureje do que realmente pensamos sobre o contexto dos livros cuja leitura fizermos. Fora desse perímetro, a leitura é, como nos confidenciou Green, " une forme de paresse ".
Não está bem que se leia apenas um autor, o que equivaleria a só colher uma perspectiva. Para cotejar ideias, importa multiplicar a variedade, embora a todos os autores a gente deva ler com a profundeza que nos for possível.
Se as leituras forem superficiais - ainda que variadas -, caso é para nos jogarem a bisca: multum legendum esse, nom multa.
Certo autor alemão pôs, logo na entrada de um seu livro de ensaios: Nur fur Leser: Só para leitores.
É que há quem pelas páginas do livro passe como cão por vinha vindimada, quem as olhe como cão de loiça, e esse tal não é leitor. Leitor só o é, de verdade, aquele que desce, como diria Rabelais, à "substantifique mouelle " das ideias, e as sabe aproveitar, como trampolim, para também ele pensar de conta própria.
A leitura mais profícua, quando chegamos a certa maturação do espírito, não é a da palavra por palavra, mas a leitura em diagonal, aquela que, num relâmpago do olhar, capta as ideias-mestras da página. E são estas, na verdade, as que importam, para depois serem meditadas por escrito, ou tertuliadas num grupo de pessoas realmente interessadas nas lides do raciocínio.
Não nos parece (desde que se atinja a referida maturação de espírito) que seja de aconselhar a prática recomendada por Emílio Faguet, na sua Arte de Ler: "lire très lentement, jusqu´au dernier livre qui aura l´honneur d´être lu..."
Não. Esse sistema é para principiantes, não para quem, numa rápida espreitadela de página, logo lhe apanha a "substantifique mouelle".
Que a leitura não encha as cabeças apenas de palavras. A pure suffisance livresque gera o psitacismo. Toda a leitura deverá ser tal que desperte o apetite de se passar da letra à picareta, como quem diz da teoria à prática. Quem ler leia para saber; quem souber saiba para praticar.
Tudo deve culminar na prática. É esta o grande teste para se aquilatar dos méritos da leitura.
* Texto inédito, integrado no volume Memórias dum Mestre de Rapazes, organizado por Cruz Malpique e que consta do espólio existente na BPMP.
Extraído do livro de Paulo Samuel "Perfil Ameno de um Escritor Humanista" - Edição da Câmara Municipal de Nisa - 1993