segunda-feira, 4 de julho de 2016

SANTANA (Nisa): Memórias da Freguesia

Rancho do Arneiro em Cortejo de Oferendas (1950)
Em Vila Velha de Ródão, tal como em Nisa uns anos depois, realizaram-se na década de 50, Cortejos de Oferendas a favor da construção do Hospital.
Eram estas as iniciativas que se realizavam, de norte a sul do país, como forma de superar as carências financeiras do Estado Novo e das autarquias que sofriam de um mal crónico e endémico: a falta de verbas para resolver problemas elementares. Eram, pois, os cortejos de oferendas que garantiam uma parte considerável do financiamento para as obras de construção, ampliação e/ou remodelação de hospitais nas décadas de cinquenta e sessenta, construções e melhorias só possíveis com as dádivas das populações locais que, muitas vezes e num exemplo de verdadeira solidariedade, tiravam da boca e do pouco que tinham, os magros proventos para ajudar e contribuir numa causa que era de todos.
No caso do Arneiro, na altura pertencente à freguesia de S. Simão, a contribuição e o envolvimento directo da população no Cortejo de Oferendas a favor do Hospital de Vila Velha de Ródão é, ainda, um facto mais notável, por se tratar de ajudar uma estrutura e instituição de um concelho e região a que não pertenciam.
A explicação residia, na altura, como ainda hoje, nas relações de proximidade e afectividade existente entre as duas povoações de uma e outra margem do Tejo.
A participação do Rancho do Arneiro, dirigido por Francisco Diogo Pinto, no Cortejo de Oferendas, realizado em 10 de Setembro de 1950, a favor do Hospital de Vila Velha de Ródão teve um assinalável êxito.
Homens e mulheres, na sua maioria jovens e envergando os trajes típicos dos pescadores, a actividade económica mais importante dos designados Montes de Baixo, desfilaram pelas principais ruas da vila rodense entoando canções populares, de que deixamos aqui algumas quadras.
I
Arneiro, terra de amores
Viçoso como alecrim
Aldeia de pescadores
Cheia de flores
Tu és assim
II
O teu sorriso de glória
Realça a tua nobreza
Embora bem pequenino
Deu-te o destino
Tanta beleza
Coro
Ó minha aldeia
De pobreza revestida
Embora feia
Para mim é s a mais querida
A tua graça
No mundo não tem rival
Onde quer que a marcha passa
Mostra que esta raça
É de Portugal!
III
Lá vão na marcha contentes
Rapazes e raparigas
Mostram-se audazes, valentes
Ei-los sorridentes
Não mostram fadigas
IV
Todos cantam, todos bailam
Num conjunto verdadeiro
Cantam p´ra todo o cortejo
Viva o Alentejo
Viva o nosso Arneiro!
A finalizar a sua participação no Cortejo de Oferendas, o Rancho do Arneiro não escondia o fim que ali os levara e, em jeito de despedida, cantaram:
Trazemos pão
Azeite louro
E a nossa fé
Que é o maior tesouro

Fé no futuro
De Portugal
E fé no carinho
Do nosso Hospital

Vivam senhores
Por largos dias
Deus nos proteja
E dê muitas alegrias

Quem faz o bem
Empresta a Deus
Senhoras e senhores
Dizemos-lhes adeus.
in "Jornal de Nisa" nº 264