quarta-feira, 17 de agosto de 2016

POETAS DE MONTALVÃO - António José Belo: Memória que o tempo não apaga

Foi um homem multifacetado, o ti António José Belo. Natural de Montalvão, morreu em Nisa, ( " Nisa, terra alentejana / O teu povo é de louvar / Quem lá passa não se engana / Com desejos de voltar" ) com 90 anos, no dia 25 de Junho de 2002.
António José Belo, foi um homem de intervenção, dedicado a uma causa, a da cultura popular, em favor da sua terra, do seu "tchon", que ele cantou e divulgou de modo admirável, num tempo em que os apoios, aos mais diversos níveis, eram irrisórios, e em que a força do querer, a "carolice" e o amor ao chão pátrio, removiam montanhas, transformando os sonhos em realidade.
António José Belo, foi, inquestionavelmente, um homem de sonhos e de horizontes vastos, que não se confinavam ao seu "avião de carreira" ( desenho com o qual identificou as formas de Montalvão) .
Voava e viajava, vezes sem conta, em viagens quase permanentes, através da poesia ( as populares quadras e décimas), das figuras que esculpia num pedaço de madeira, a que dava formas bizarras ou de que aproveitava os contornos, mantendo a simbologia bruta e original, extraída da terra.
Artesão, músico, apresentador de espectáculos, construtor de cenários e de peças de teatro, animador cultural, etnógrafo, nada do que se relacionasse com o seu "Montalvão querido" lhe
passava à margem. O movimento associativo do Monte Alvão e das terras vizinhas muito lhe ficou devendo e a história cultural daquele rincão raiano foi, durante a maior parte do século passado, escrita pelo punho e pelas iniciativas que tinham a "marca" de António José Belo.
Este artista popular, escreveu um livro, terá plantado árvores sem conto, foi carvoeiro, alfaiate, alimentou durante muitos anos na sua terra, a chama da cultura. Promoveu, com reduzidos meios, mas com uma dinâmica extraordinária, formas de participação colectiva dos seus conterrâneos, fossem elas feitas através da música, do teatro, do rancho folclórico, dos saraus artísticos. Aliava, à sua propensão para as artes, uma jovialidade e frescura de espírito, que manteve até final da sua vida. Algumas das décimas, como as que a seguir, reproduzimos, revelam, essa fina particularidade do seu carácter, que tinham apenas, como finalidade, provocar o humor saudável e a boa disposição. As poesias brejeiras, as curiosidades e as histórias com sotaque regional, que deixou no seu livro, ajudam a compreender o homem e a época, e são um contributo inestimável quando se procurar concretizar a ideia de uma monografia de Montalvão.
Morreu o homem, o artista popular. Para que outros possam seguir o exemplo, fica o registo de uma vida e de uma memória que não se apaga.
O que eu fui
Fui poeta e romancista
Fui artesão, fui pintor
Alguns tempos fui fadista
Também fui trabalhador.

Levei a vida a cantar
Em festas e romarias,
Passava noites e dias
Às vezes sem descansar
São tempos para recordar
Enquanto um homem exista
Não há recinto nem pista
Que eu não dançasse o tango
Fui bailador de fandango
Fui poeta e romancista
Fui serrador de madeiras
Trabalho duro e pesado
Mas também cantava o fado
Em festas arraiais e feiras
Eu fazia brincadeiras
E obras de grande valor
Várias vezes fui autor
Fiz desenhos e pinturas
Fazia caricaturas
Fui artesão, fui pintor.

Quando era rapazola
São coisas para não esquecer
Eu aprendi a escrever
Sem nunca ter ido à Escola
Fui tocador de viola
Bandolim e guitarrista
Na qualidade de artista
Muitas coisas disse e fiz
Mas sempre me senti feliz
Nos tempos que fui fadista.

Enquanto Mundo for Mundo
E saibamos dividir
Dá para cantar e rir
O tempo chega para tudo
Fiz o trabalho mais rude
Fiz histórias, fui historiador
De folclore ensaiador
Para pazes, fiz uma ermida
Fiz tantas coisas na vida
Também fui trabalhador
Jornal de Nisa - 1ª série - Maio 2008