quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lenda de Amieira do Tejo em crónica de Vanessa Fidalgo

" Na Amieira do Tejo, pitoresca aldeia do distrito de Portalegre, são famosas as tropelias das bruxas e das mouras encantadas, mas também se conta uma curiosa história sobre uma procissão dos terceiros. Uns conseguiam vê-la, outros ouviam-na apenas e outros tantos nunca tinham visto nem ouvido nada e, portanto, eram os que mais se fartavam de falar sobre o assunto. Contavam para quem os quisesse ouvir que a certas horas da noite, pela Quaresma, quem se chegasse à janela e tentasse avistar o horizonte para os lados da calçada de São Pedro, corria o sério risco de ver uma tenebrosa procissão, encabeçada por sombras diáfanas ou até mesmo caveiras encapuzadas. Naqueles súbitos momentos de encontro, as almas penadas desciam do cemitério em fila indiana em direção à vila, espiar os pecados do mundo dos vivos. Pois numa dessas estranhas noites, uma mulher que morava na rua do Arrabalde levantou- -se mais cedo para pôr o pão a cozer e, sem querer, foi à janela ver se o sol já lá vinha. Não o encontrou, mas deu de caras com a procissão das almas... Não se espantou! Como era muito despachada até aproveitou para resolver o problema que a apoquentava naquele momento: não tinha lume para acender a lareira e por isso não hesitou em pedi-lo a um dos mortos-vivos que carregavam as tochas.
O defunto encarou-a, espantado com o desaforo. Suspirou num bafo podre e gelado, mas não se opôs. Entregou-lhe uma vela acesa, pedindo-lhe apenas que a devolvesse no dia seguinte à mesma hora. Mas ela, em vez de bater com a porta e dedicar-se à massa, deixou-se estar no parapeito a roer as unhas e a ver as almas passar silenciosamente na sua penitência errante. Mal amanheceu, correu para o mercado e contou a quem a quis ouvir a maneira como tinha fintado o medo e até conversado com os fantasmas que rondaram a porta. Na noite a seguir, porém, não perdeu pela demora. Quando foi à cantareira buscar a vela para cumprir a prometida entrega até ia desmaiando de susto! No lugar da vela estava a mão pálida e fria do diabo, que a agarrou antes de ter tempo para fugir ou fazer qualquer outra coisa em legítima defesa! Quem lhe falou depois foi o morto. Disse-lhe que deixasse de ser coscuvilheira e que nunca mais se levantasse a meio da madrugada para ver quem passava na rua a desoras, porque quem está está. E quem vai vai!
Vanessa Fidalgo - Correio da Manhã - |02.10.16