quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Bom tempo apadrinhou festas de Amieira do Tejo (2008)

Sob o signo do bom tempo decorreram em Amieira do Tejo os tradicionais festejos em honra de Nossa Senhora da Sanguinheira.
A abrir, no dia 12, um animado baile abrilhantado pelo trio PPR de Gáfete, tendo actuado no intervalo as Contradanças de Alpalhão com os seus lindos trajes.
Deliciaram e fizeram lembrar as marchas e outras danças que aconteciam em Amieira pelo Carnaval, comandadas pelo saudoso amieirense Alfredo Garcia.
No dia seguinte, sábado, aconteceu a sempre esperada tourada à vara larga, desta vez com forcados experimentados, vindos das redondezas e que fizeram questão de abraçar todas as vaquinhas que lhes apareceram pela frente.
Mais tarde, realizou-se a procissão da capela para a igreja matriz, onde a imagem da santa pernoitou. No recinto das festas, seguiu-se o arraial onde o grupo Seara Jovem, actuando desta vez sem chuva, pôde mostrar as suas potencialidades em matéria de música tradicional portuguesa. O arraial avançou noite adentro e os frangos continuavam a debandada a caminho dos estômagos, principalmente dos forasteiros.
No dia 14, realce para a missa dominical seguida de imponente procissão, a que foi dado o nome de “procissão do adeus”, a caminho da sua capela, onde os habituais lenços brancos, mais uma vez, mostraram que em Amieira a fé continua como sempre, no coração dos amieirenses.
Na segunda-feira, como se esperava e devido à abertura das aulas, houve muito menos gente, sendo o arraial abrilhantado pelo já conhecido Nuno José.
Parabéns a quem ainda se vai esforçando para que a tradição continue de pé.
- Jorge Pires in "Jornal de Nisa" nº 263 - 24/9/2008

HISTÓRIAS DA CHARNECA - Dois lobos no Caminho

Não sei quando aconteceu, não sei em que tempo aconteceu, fiquemo-nos por foi há muitos anos, ainda havia lobos nos cerros da parte norte do concelho de Nisa. Talvez na primeira década de 1800. O meu avô ouviu a história do seu avô que a ouvira a um velhote. Os acentuados declives dos terrenos de Salavessa constituíam um ecossistema propício para animais selvagens como o veado, o javali e o lobo. Ainda hoje assim é. Nesse tempo vivia em Salavessa um casal com os seus seis filhos, moravam na rua do Santo. O filho mais novo tinha poucos meses e o casal resolveu que era tempo de o baptizar. Com o aproximar da cerimónia, o pai da criança deslocou-se a Montalvão para comprar carne. Manuel Ribeiro acabou por estar todo o dia na cavaqueira das tabernas, na conversa com amigos, demorou-se um pouco mais e já era quase noite quando se pôs ao caminho.
Ainda não tinha feito metade do percurso, aproveitara para descansar um pouco e matar a sede na fonte dos Defuntos, quando foi surpreendido por dois lobos. Atraídos pelo cheiro da carne os lobos seguiam Manuel Ribeiro há já algum tempo sem que este se apercebesse. Até que lhe barraram o caminho. Má sorte para o nosso amigo, nesta altura estava longe de imaginar que era o início de uma tragédia para si e para a sua família. Com o objectivo de os afastar Manuel começa a atirar-lhes pedras. Os lobos afastavam-se um pouco mas voltavam de olhos fixos no homem. Percorrer a distância que faltava era agora a sua maior preocupação. O pânico começou a apoderar-se de Manuel até que pensou em arremessar-lhes um pedaço de carne – a carne era para o baptizado do filho mas não havia escolha possível. Enquanto os lobos se entretiveram com o primeiro naco de carne, Manuel aproveitou para correr, vereda fora, em direcção a casa. Todavia os lobos, pacientes e persistentes, atravessaram-se novamente no caminho. Sem outra hipótese, desfez-se da carne e aos poucos avançava no caminho para a aldeia. Cada pedaço permitia uns metros na caminhada, desta forma conseguiu atravessar a Charneca e alcançar o seu objectivo. Foi perseguido até à entrada da aldeia, até à porta da sua casa na rua do Santo – a rua do Santo, que hoje está no centro de Salavessa, ficava nessa época à entrada da povoação. 
Já seguro, Manuel Ribeiro acordou a mulher para partilhar a aflição que tinha vivido. Abeiraram-se devagar dos postigos da porta e ambos os viram partir e desaparecer no escuro da noite.
Mas Manuel não conseguiu superar o susto que apanhara. Permaneceu na cama, vítima, ou não, do sobressalto de que fora alvo e a verdade é que semanas depois acabou por falecer. A sua esposa pouco tempo viveu, falecendo meses depois. Os filhos ficaram sem a protecção dos pais, crescendo de um lado para o outro, em casas de familiares e amigos. Já adultos, e não respeitando as regras da comunidade, perderam por completo o respeito da aldeia.
Dois lobos no caminho. Dois lobos que interromperam o percurso de uma vida. Foram a pedra de toque para a morte dos progenitores e para a desgraça dos filhos? A tradição oral diz que sim. Não sei se a história se passou exactamente desta forma. Diz-se que quem conta um conto lhe acrescenta um ponto, são as regras da vida, das histórias da vida. Podem os lobos servir de desculpa para o destino das pessoas, para a doença e para a pobreza? A verdade, é que também os medronheiros das terras da Charneca, as estevas de papoila branca, os pinheiros, a água que corre no ribeiro de Ficalho, todos contam a história, recordam os factos e lembram a sua aflição. 
O meu avô João diz que foi verdade, está seguro da sua autenticidade, ouviu a história ao seu avô Manuel Correia, que nasceu ali por 1860. Mas os factos eram mais recuados. Muito mais recuados. São do tempo em que a entrada de Salavessa era na rua do Santo, junto à capela da aldeia. São do tempo em que lobos e homens partilhavam o mesmo território, se debatiam pelos mesmos caminhos, pelas mesmas veredas e, olhos nos olhos, se enfrentavam. Não sei quando aconteceu, não sei em que tempo aconteceu, fiquemo-nos por foi há muitos anos.

* Luís Mário Bento - in "Jornal de Nisa" nº 213 - Agosto 2006

POESIA POPULAR DO CONCELHO DE NISA (2) - Jorge Pires

Jorge Manuel Pires da Rosa

 Casamento atribulado 

Casou nova a Joaquina
Com um homem já vivido
Ela era pequenina
E ele muito comprido

Foi um grande casamento
E houve festa no lugar
Mas foi um grande tormento 
Para o noivo se deitar

Pequenina como era
Aquela cama de casal
Toda a gente estava à espera
Que a coisa corresse mal.

E quando ele percebeu
Que tinha que dormir encolhido
Pegou em tudo o que era seu
E queria fugir arrependido.

- Calma, aí! – disse a Joaquina
Agora não sais daqui
Lá por eu ser pequenina
Não tenho medo de ti.

Houve luta sem quartel
Naquele quarto acanhado
E só houve lua de mel
Depois do noivo arranhado.

E quando ele coitado
Acordou já alto dia
Tinha a Joaquina ao lado
Mas ele, já não…podia!
Jorge Pires

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

AMIEIRA DO TEJO: Centenário do nascimento de João Vieira Pereira

Morreu um homem bom *
Deve ter morrido feliz e de consciência tranquila. Fez bem sem olhar a quem, guiou-se pelos princípios mais simples e valorosos que um homem pode ter.
Um Homem com H maiúsculo. Se quiséssemos escolher um cidadão exemplar, amigo de todos, especialmente dos mais modestos, não teríamos dúvidas em eleger do Dr. João Vieira Pereira.
Viveu quase 85 anos, com uma juventude imbatível, com uma força de viver inigualável, com uma amizade pelos outros, transbordante, como uma actividade incansável.
Há muito que o tínhamos por amigo e em momentos recentes que passámos por provações difíceis, tivemos sempre dele uma visita oportuna, uma palavra amiga.
As palavras e as homenagens, muitas delas de circunstância não alterarão a imagem e a gratidão de todos os que o conheceram, que privaram com ele, que foram seus doentes e amigos.
Pena foi que em vida não tenha sido consagrado ao mais alto nível pela sua dedicação à comunidade, mas isso não lhe fará incómodo, porque muitos dos que são agraciados nessas circunstâncias, não merecem nem de perto aquilo que ele é credor.
Não temos mais palavras para testemunhar a nossa gratidão, porque a comoção ao escrevê-las nos impede de continuar.
Para nós, a vida vale a pena pelo facto de termos conhecido o Dr. João Vieira Pereira e alguns como ele, que são verdadeiros amigos, que sabem comungar o sofrimento e as alegrias de forma perene.
Obrigado Dr. João Vieira Pereira.
JLAS
* Texto publicado em 1993 na “Gazeta das Caldas” por ocasião do falecimento do médico amieirense.

MEMÓRIA: Evocação de António Louro Carrilho nos 20 anos da sua morte (2012)

 

Já era tempo do home(m) / Já era tempo também / De dar pão a quem tem fome /Trabalho a quem o não tem. (1)
Domingo, 11 de Janeiro de 1992. Évora, cidade, acordara com um manto frio de neblina a inundar-lhe os poros. Em Nisa, no extremo norte do Alentejo, decorria a 1ª Feira do Mel.
É aqui, na plena agitação de um dia de feira que a notícia surge, a um tempo, seca, brutal e inesperada: morreu o António Louro Carrilho!
Um trágico acidente de viação roubara, em segundos, a vida de um jovem professor universitário, culto, determinado, irreverente, nascido em Salavessa (Nisa).
Lembro-me como se fosse ontem do impacto que a notícia causou, a tristeza e a comoção, a revolta e indignação por uma despedida da vida tão precoce como injusta.
O António Louro Carrilho não era uma pessoa qualquer. Aos 37 anos, percorrera, já, um longo e penoso caminho, cheio de obstáculos que ele ia torneando com a simplicidade e o voluntarismo, a mestria e a determinação de quem sabia que a felicidade tinha que ser conquistada.
De origem simples, rural, cedo compreendeu o esforço dos pais, emigrantes, para lhe darem uma vida melhor. Estudou no liceu em Castelo Branco, onde a sua presença, não passou despercebida, antes pelo contrário. Soube granjear amigos sem nunca se despojar das suas convicções. Na década de 70, em pleno período revolucionário, torna-se na voz e imagem das reivindicações estudantis na cidade albicastrense. As suas vindas à aldeia natal e a Nisa são sempre pretexto para intermináveis discussões sobre os "caminhos da Revolução". Adepto da "Revolução Cultural" chinesa e das ideias maoístas, António Carrilho, de longas barbas e cabelo revolto é a imagem inacabada do Che, com um poder de argumentação sempre vivo e acutilante. Não desprezava, antes estimulava, uma boa discussão, quando os interlocutores se lhe mostravam à altura.
A pretensa dureza e rigidez do seu discurso, escondiam o homem e futuro universitário que através do estudo da filosofia e da pedagogia iria debruçar-se como lema de vida, nas questões centrais da liberdade, da razão e da existência.
O revolucionário dogmático deu lugar ao militante do espírito, da compreensão do mundo, do humanismo, numa abordagem multidisciplinar e plural que nunca abandonou.
Frequenta a Universidade de Coimbra onde conclui a licenciatura em Filosofia (1979) e mais tarde (1988) o Mestrado com uma tese "Filosofia e pedagogia no pensamento de Delfim Santos" que obteve a classificação de Muito Bom. A Universidade de Évora acolhe-o como professor assistente e desde logo o seu espírito trabalhador e metódico é notado, tendo iniciado uma carreira académica plena de sucesso.
O seu talento de investigador é premiado como bolseiro da Gulbenkian tendo efectuado diversos trabalhos de investigação na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica).
Dessa estadia em Louvaina, Mário Mesquita oferece-nos, num breve relato, alguns aspectos da personalidade de António Louro Carrilho, seu companheiro de investigação.
"O que me surpreendia no António era a forma exemplar como conjugava a disciplina no trabalho académico com as outras mil e uma questões a que dedicava atenção e interesse: desde o desporto (jogou futebol na terceira divisão) à apicultura… Era bem curiosa a forma ágil como mudava do registo exigente da reflexão inerente ao seu trabalho universitário para o não menos exigente discurso acerca das pequenas questões do quotidiano … ".
António Louro Carrilho não esgota as suas preocupações unicamente no trabalho universitário. A filosofia e o fenómeno da comunicação levam-no a publicar livros sobre Antero, Régio, Delfim Santos e Sartre e a produzir diversos artigos tanto em revistas da especialidade como a "Vértice" ou a "Economia e Sociologia", como em jornais, desde "O Giraldo" ao "Ecos do Sor" e à revista cultural de Portalegre "A Cidade".
Na área da Pedagogia publica "A formação de professores na Universidade de Évora" na Revista Portuguesa de Pedagogia e "Quem tem medo da Filosofia no ensino secundário" n´O Jornal da Educação – Suplemento do Jornal de Letras.
António Louro Carrilho preparava o doutoramento com um trabalho de investigação sobre "Filosofia, Comunicação e Pedagogia – Por uma Pedagogia de Relação Interlocutiva".
Muito apegado à sua aldeia, Salavessa, António Carrilho dedicava-se à apicultura, pretexto para as constantes visitas que fazia ao concelho de Nisa e na quais aproveitava não só para os trabalhos com as abelhas e as colmeias, mas para se embrenhar e participar como cidadão activo e empenhado nos problemas da sua terra.
Do seu esforço persistente e recolha sobre a obra do poeta popular José António Vitorino – o Ti Zé do Santo - nasceu o livro "Terra Pousia", e nele escreveu António Carrilho, no prefácio:
"A cultura popular é a mais simples, a mais pura, a mais verdadeira, porque nasce de uma relação espontânea do homem com a natureza, a vida e a sociedade. Não está contaminada pelas vontades dos barões da crítica, não é forjada segundo o estilo das bigornas dos catedráticos, não se passeia pelos salões das academias".
E remata, como falando de si próprio: "Faz-se com a mesma humildade, empenho e vigor com que o homem agarrado à rabiça do arado, rasga a terra pousia para nela lançar as sementes geradoras do pão de cada dia".
António Louro Carrilho era um homem frontal e solidário, um professor que prestigiou com o seu trabalho, a Universidade. Um cidadão comprometido com os problemas da sua terra, da sua região e do seu país. O concelho de Nisa perdeu, há vinte anos, um filho e um professor de mérito, cuja memória aqui evocamos e que vai perdurar pelos tempos fora.
(1) – Vitorino, José António – in "Terra Pousia" - 1996

António Louro Carrilho – A Obra
Filosofia
1"Sartre – a liberdade e o indivíduo como imperativos éticos" – Ecos do Sor – 12/5/1980
2 – "Coordenadas filosóficas no pensamento de José Régio" – A Cidade – Outubro de 1984
3 "Antero do Quental e o Socialismo – Subsídios para a compreensão do seu pensamento político" – Edição de Autor – Évora, 1985
4 – "A técnica sob a alçada da teoria crítica em Jurgen Habermas" – Economia e Sociologia – Évora – nº 41 – 1986
5"O problema da liberdade na filosofia de Sartre" – Economia e Sociologia – Évora nº 47 – 1989
6 – "Delfim Santos e a filosofia portuguesa" – Vértice – Lisboa, II Série nº 12 – 1989
7" Je zappe donc je suis ou a televisão na afirmação do eu pela via do telecomando" – Vértice, Lisboa, II Série, nº 47 – 1992
Educação
8 – "A formação de professores na Universidade de Évora" – Revista Portuguesa de Pedagogia – Coimbra, 1984
9 - "A formação de professores na Universidade de Évora" – Informação Interna – U. Évora – 15 Fevereiro 1985
10 – "O estudo epistemológico da pedagogia em Delfim Santos" – revista Portuguesa de Pedagogia – Coimbra, 1988.
11" Quem tem medo da filosofia no ensino secundário?" (1) – "O Giraldo" – Évora – 9/3/1988
12 –" Quem tem medo da filosofia no ensino secundário?" (2) – "O Giraldo" – Évora – 24/3/1988
13" Quem tem medo da filosofia no ensino secundário?" (1) – O Jornal da Educação – Supl. Nº 2 ao JL - Jornal de Letras – 26 de Março a 4 de Abril de 1988

Mário Mendes in  À Flor da Pele - "Alto Alentejo" - 18/1/2012

domingo, 27 de dezembro de 2020

MEMÓRIA: O Natal na vila de Montalvão

Logo em Setembro e Outubro já a maioria das crianças andava alvoroçada com a perspectiva das festas do Natal que não demorariam a chegar. Eram os primeiros a lembrar-se dessa quadra festiva. Por isso, era motivo de “superioridade” dizer aos outros que já tinha duas ou três fachas (pequenos molhos de troncos herbáceos secos de cerca de 1 metro de altura, de uma planta a que chamavam “gamão” e que serviriam de tochas na noite do Menino Jesus).
O tempo decorria, as colecções de fachas iam aumentando, aumentando também a vaidade de ter um maior número daqueles molhos; as prendas do Menino Jesus não interessavam por agora. O entusiasmo aumentava sempre até à chegada da Noite Santa.
Na véspera do Dia festivo, e na generalidade, as famílias atarefavam-se nos preparativos da Consoada: as senhoras, em casa, preparavam os ingredientes para os fritos que, à noite, depois da ceia (jantar) iriam acabar, enquanto os homens iam à procura de um tronco para a lareira.
À volta do lume onde já ardia o enorme tronco (que devia continuar aceso até ao Ano Novo) procedia-se ao resto da confecção e fritura das filhós e azevias (por vezes argolas doces) enquanto o pai, a um canto da lareira, lia o jornal e ia provando de tudo um pouco alheando-se da azáfama que existia à sua volta.
Na rua, as crianças davam largas à sua alegria queimando, finalmente, os archotes (fachas) que, com tanto carinho e alvoroço juntaram para iluminarem o Deus Menino. Ao mesmo tempo grupos de rapazes da mesma idade (quintos) passeavam pelas ruas e entravam em casa de alguns deles para comerem os fritos que, normalmente, todas as famílias faziam, excepto as pessoas enlutadas que, por esse motivo, eram presenteadas no dia de Natal por pessoas das suas relações.
Queimados os archotes (fachas) as crianças iam para casa e sentavam-se também à lareira. A certa altura caiam no chão da cozinha rebuçados e vários frutos secos “lançados pelo Deus Menino” que por ali passava. O rebuliço das crianças era grande tentando, cada uma, apanhar o maior número possível daquelas guloseimas. Os mais crescidos segredavam então aos mais novos que não fora o Menino Jesus mas sim o pai que atirava aquelas coisas ao ar.
Ao aproximar-se a meia-noite todos se dirigiam à Igreja para ver o presépio, assistir à Missa do Galo e beijar o Menino. Regressados a casa havia café para todos, filhós e azevias ou ainda carne de porco frita. Na hora de deitar, os pequenos não se esqueciam de pôr o sapatinho perto da chaminé na esperança de que o Menino ali deixasse algum presente. No dia de Natal, manhã cedo, os meninos corriam para a lareira para ver se, no sapatinho, sempre havia alguma lembrança deixada pelo Menino. Depois, chegada a hora, todos se dirigiam para a Igreja e assistiam à Santa Missa.
Na última noite do ano grupos de raparigas lançavam borrifos de água nas portas das casas e, atirando farinha para cima diziam: “Bons Anos vos dê Deus!”. Do interior das casas alguém respondia: “Obrigado!”.
Dia de Ano Novo, à saída da Santa Missa, mulheres com açafates cheios de filhós ofereciam-nas a quem quisesse cumprindo, assim, alguma sacra promessa.
Estas descrições reportam-se aos anos 30/40 do séc. XX vividas nestes termos pelo narrador.

Évora, Dezembro de 2010
Anselmo de Matos Lopes in "Brados do Alentejo"

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

AS CRÓNICAS DO CONIXA (I): O menino que desafiou o tempo

Quando nasce uma criança, é uma alegria para os pais que pensam logo no seu enxoval, no nome que lhe hão-de dar e na sua alimentação para que não lhe falte nada.
A crianças cresce, cobrindo-se de brinquedos, ao contrário de antigamente pois ninguém se preocupava com a segurança dos mesmos, porque nem todos possuíam este privilégio.
Naquele tempo ainda havia ricos e pobres, pois Nisa e o Alentejo eram de meia dúzia de senhores em que os pobres não tinham acesso à saúde, não podiam comer uma refeição equilibrada e os filhos não tinham brinquedos. Era o dinheiro que estava mal dividido. 
Hoje, as crianças mal nascem já têm computadores e jogos electrónicos, transformando-se em peritos da tecnologia moderna, não esquecendo que são esses jogos que desenvolvem a inteligência, embora haja muitas crianças que são vítimas de certas doenças ocasionadas pelo uso intensivo desses mecanismos e pelo stress dos jogos de computador.
Outro aspecto maléfico e pernicioso do uso, indevido, dos computadores, tem a ver com o facto de muitas crianças, guiadas pela curiosidade e sem nenhum controlo ou vigilância, caírem no abismo da pornografia infantil, sem que os pais, tantas vezes, se dêem conta do perigo a que estão expostas os seus filhos.
Eu brincava com cascas de laranja e com tudo o que me parecia adequado e era, assim, uma criança feliz, tal como todas as crianças pobres. A entrada na escola marcou-me, por ver os pais dos outros meninos, levá-los à escola no primeiro dia de aulas, pois a minha mãe andava na “féga” (colheita da azeitona).
Lembro-me bem. Ainda não tinha sete anos, naquele dia 7 de Outubro de 1955, em que o frio de Outono já se fazia sentir, anunciando a chegada do Inverno, mais rigoroso. E lá ia eu, de pé descalço, com uma saca de sarapilheira na cabeça, servindo de impermeável para me abrigar da chuva.
Eu não tinha mala da escola, era um saco de farrapos, feito por minha mãe, no qual transportava a pedra e o lápis. Os livros foram-me fornecidos por intermédio da Caixa Escolar e a refeição do meio-dia era oferecida pela Cantina Escolar da Fundação Lopes Tavares. Deus tenha em bom descanso, o senhor Dom António!
Neste quatro anos de escola aprendi muito. Aliás, aprendi tudo, porque os meus pais e os demais não tinham meios para nós irmos mais longe.
Estou contente, por estar ainda cá e ter acontecido o que aconteceu, de aprender o que aprendi e de poder seguir de perto a evolução da minha terra e do meu país.
Naquele tempo, em certos lares pobres, dividia-se uma sardinha em três; o trabalho era árduo e escasso e os nossos pais, muitos deles foram obrigados a dizer: basta!
Não estavam dispostos a comer mais pão do que o diabo amassou e emigraram para Lisboa e suas redondezas. Nessa época já em Nisa se começava a sentir alguma evolução, com a construção do Hospital, Tribunal, Casa do Povo e outras repartições de interesse público, muito embora não houvesse liberdade.
A Praça da República, o nosso Rossio era o centro do mundo, o palco de feiras e mercados, onde os carrocéis  e os circos que por lá passavam faziam vibrar a garotada.
Nessa altura, ainda me lembro e hoje, aqui, presto a minha homenagem ao fundador do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, o senhor Rodrigues Correia, um nisense de acolhimento que deixou descendentes nascidos em Nisa e foi director do Teatro Moiron, um teatro desmontável que permaneceu cerca de um ano nesta mesma praça, onde ele e toda a sua família faziam o elenco das peças teatrais como a “Rosa do Adro”, a D. Inês de Castro, As Pupilas do Senhor Reitor, Zé do Telhado, entre outros dramas ou comédias que fizeram palpitar o coração dos nisenses.
Pouco tempo depois rebentou a Guerra do Ultramar e na idade propícia também não pude fugir às obrigações militares que me conduziram até Angola. Ao mesmo tempo começava também a emigração clandestina para França e Alemanha. Foi um tempo difícil, de luta, de muitos sonhos e esperanças que levaram para fora da nossa terra, mais de um terço da população do concelho de Nisa.
Abandonaram o rincão que os viu nascer e abalaram à procura de uma vida melhor noutras paragens. Eu acabei, mais tarde, por arriscar, numa aventura que foi boa, por um lado e má, por outro.
Consegui, fora do meu país, aquilo que, talvez, não conseguisse em Portugal. Teve custos, é certo, o mais doloroso é ter um filho e uma filha casados com cidadãos franceses, que me deram três netos. É como se estivesse com o coração “cortado ao meio”, dividido, entre a terra onde nasci, as minhas raízes, e a terra que tão bem me acolheu e onde despontam, também, novas e promissoras raízes.
O meu dilema é entre voltar e desfrutar a liberdade que o 25 de Abril nos deu ou ficar e acompanhar aqueles que me são mais queridos.
Num e noutro lado, é o desenvolvimento da Europa que está em jogo. A vida, está sempre connosco: quando perdemos, quando vencemos e quando caímos e nos voltamos a erguer. Somos pessoas, somos humanos!
Não se deve condenar ninguém sem a mesma ser julgada e enquanto tal não acontecer a mesma pessoa será sempre inocente.
A bondade só se descobre na idade adulta. É por isso que aconselho e alerto para situações que me parecem inaceitáveis e em que a gravidade dos factos ainda passam despercebida para alguns pais e para muitos munícipes, fazendo de conta que tudo corre bem e na realidade não é assim.
· “Muitos homens nascem cegos e só se apercebem no dia em que uma boa verdade lhes fura os olhos” – Jean Cocteau (1889- 1963)
· “Quando já não há remédio, há ainda esperança” – Jean Pierre Ribes, 1946)

* António Mourato (Conixa) - "Jornal de Nisa" nº 249 - Janeiro de 2008

Bom tempo apadrinhou festas de Amieira do Tejo (2008)

Sob o signo do bom tempo decorreram em Amieira do Tejo os tradicionais festejos em honra de Nossa Senhora da Sanguinheira. A abrir, no dia 1...