sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

NISA: Corrida de S. Silvestre - 23 Dezembro à noite





AMIEIRA DO TEJO: Evocou o percurso do Senhor dos Passos

Foram momentos de verdadeira fé e devoção, os vividos pelas populações de Nisa, Amieira do Tejo e Alpalhão, na evocação do percurso do Senhor dos Passos até ao Calvário.
Em Amieira do Tejo, uma antiga vila que sempre venerou estas celebrações, as cerimónias tiveram uma aceitação e participação por parte do muito povo, natural e residente e ainda das centenas de amieirenses radicados na Grande Lisboa e noutras localidades do país, que vieram até à sua terra natal, contribuindo para que a procissão decorresse de forma elevada e digna, exaltando os princípios da religiosidade cristã.
O facto de estas celebrações não se realizarem desde há 12 anos, fez vibrar ainda mais o coração dos amieirenses e os elementos da Irmandade dos Santos Passos que se empenharam e uniram para tornarem realidade a Festa dos Passos.
Uma festa que começou logo pela manhã com a chegada da Banda União Artística de Castelo de Vide e o inicio do peditório em Vila Flor e Amieira.
A procissão começou às 14,30h, a partir da Capela do Calvário até à Igreja Matriz, onde foi celebrada missa, após a qual, foi retomada a procissão percorrendo as principais ruas da Vila até à Capela do Calvário.
50 Anos do Tratado de Roma


Há 50 anos (1957) através do Tratado de Roma, tinha início o processo de construção da unidade europeia. A data foi assinalada em toda a Europa e uma das iniciativas programadas consistiu na realização de concertos musicais, através dos quais e a uma hora programada, as bandas filarmónicas de diversos países europeus tocariam o Hino da Alegria, adoptado como o Hino da Europa.
Em Nisa, pelas 16 horas e no espaço defronte ao Cine Teatro, a banda da Sociedade Musical Nisense, recordava, pelo meio da música, a importância da unidade europeia e da fraternidade entre os povos.
Outro tanto fez a Banda União Artística de Castelo de Vide, em Amieira do Tejo, onde abrilhantou as solenidades da procissão dos Passos, cerimónias que há 12 anos não se realizavam.Muita gente em Amieira, a associar-se ao reeditar desta solenidade religiosa com grandes tradições nesta localidade e em todo o Alto Alentejo. Após o término da procissão e junto à Capela do Calvário, a Banda União Artística tocou o Hino da Alegria, evocando os 50 anos do Tratado de Roma e do início da construção europeia, sendo a sua actuação, premiada por calorosa salva de palmas, por parte das pessoas presentes.
in "Jornal de Nisa" - nº 228 - 2007

AMIEIRA DO TEJO: 12 Anos depois houve “Passos Mágicos”

Há já alguns anos escrevi uma poesia dedicada ao Calvário. Essa poesia, até hoje, ainda não foi publicada, mas considero-a um dos meus melhores trabalhos, devido, precisamente, ao significado que encerra. Por hoje, vou apenas “repescar” uma quadra dessa poesia:
Hei-de guardar na memória aquela fachada linda
E pensarei que um dia os Passos voltarão
Hei-de pensar que a força do povo não morreu ainda
E que não é difícil manter a tradição!
Está aí a resposta do povo amieirense. Não vou falar aqui dos doze longos anos que passaram, porque entendo será melhor não mexer no passado, mas, sim, falar dessa fantástica magia que este acto transmite e que contagia toda a população amieirense. Haverá, no entanto, quem não compreenda o porquê de algumas alterações, entre as quais, tudo ser feito apenas num dia.
Caros amieirenses, o mais importante foi conseguido, não vamos agora querer tudo de uma vez, alegremo-nos, sim, pela retoma deste acto que, apesar de tudo, voltou a mobilizar muitos conterrâneos que movidos pela tal magia, não quiseram deixar de estar presentes.
É impressionante a maneira como os cristãos seguem esta cerimónia: tanta emoção, tanta fé, tantas lágrimas!
Tudo isto atinge o auge quando, na Praça Nuno Álvares, à sombra daquele majestoso monumento (há quase um ano encerrado, que vergonha!) se revive o encontro de Maria com o seu filho a caminho do doloroso Calvário.
Que cenário, aquele! Geograficamente, para este evento, Amieira é, realmente, uma terra privilegiada. Aquele castelo é como uma fortaleza onde Jesus Cristo foi condenado injustamente. E o Calvário? Lá em cima, no Monte, local onde Jesus foi crucificado pelos algozes, depois de torturado quase até à morte.
Depois do sermão, sempre esperado com alguma ansiedade, todos se alinham e a procissão segue o seu rumo pelas ruas sinuosas, algumas delas medievais, como a das Olarias, do Engenho, de Palhais. Esperemos que um dia, se possa sair da Praça já ao pôr do sol, pois, só assim e à luz dos archotes e das velas, se poderá observar das terras da Beira, o ziguezaguear dos fiéis como acontecia nos tempos em que os Passos de Amieira deram brado e eram considerados os mais bem conseguidos de todo o Distrito. Foi, de facto, lindo, recordar os tempos de meninos quando, em cada Passo, cantávamos os versos dedicados ao Senhor.

Nesse tempo, todos queríamos ser escolhidos para ganhar um pacotinho de amêndoas que, naqueles tempos serviam para enganar o estômago bastante debilitado.
Acho que era assim, naquela adoçar de boca, que nos era transmitida a tal magia que se ia mantendo pela nossa vida fora.
Não quero terminar sem dirigir a minha admiração e também o meu aplauso àqueles Irmãos do Senhor dos Passos que tudo fizeram para revitalizar este importante acontecimento, devolvendo assim à nossa terra, uma tradição de longos anos e que muitos já consideravam irremediavelmente perdida. Que o Senhor os ilumine e lhes dê muita saúde ao longo das suas vidas.
Jorge Pires - 2007

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

MEMÓRIA: O Senhor Simplício

Um dos últimos Contrabandistas de Montalvão
No dia 1 de Novembro de 2009, Dia de Todos os Santos, faleceu, no Hospital de Cascais, o veterano montalvanense, senhor Simplício António Belo, com 98 anos de vida.
Consigo parte uma memória viva dos tempos difíceis que se viveram no século XX, neste Alentejo pobre e isolado, à mercê dos grandes senhores da terra que impunham as suas regras na base do medo. Partiu este homem bom, com que gostei de partilhar algumas conversas desses tempos difíceis que foram os do contrabando em Montalvão.
Em jeito de brincadeira tinha-lhe prometido passar para um gravador digital todas as suas imensas memórias, mas por falta de tempo (meu) nunca tal aconteceu, e assim hoje partiu a última memória viva deste Montalvão, esquecido e apagado pelo tempo.
Para conseguir aquilo que a terra teimava em não dar, tal como tantos outros jovens da época, aproveitou o vigor de outros tempos para carregar fardos de 40 e 50 quilos pela calada da noite, palmilhando trilhos de perigo entre Portugal e Espanha. Perdeu a conta às vezes que levou tabaco para "Casalinho" (Espanha) ou trouxe bacalhau para Portugal. Chegou a passar de tudo, desde burros a sabão, enfrentando guardas-fiscais e "carabineiros", passava as noites num autêntico "leva e traz".
Estes homens e mulheres que a vida vai levando lentamente, não podem partir sem deixar na nossa memória colectiva o seu testemunho sempre presente de como foram as suas vivências noutros tempos. E sinto que fico em "divida" perante este homem, por não ter feito o trabalho de recolha que se imponha para memória futura.
Devo dizer que também já se impunha uma estátua dedicada a este conjunto de montalvanenses que dedicaram uma vida (ou parte dela) ao contrabando, afim de perpetuar as vivências difíceis porque passaram os nossos antepassados.
E assim desta forma deixo a minha homenagem e este e outros Simplícios, pelo exemplo de coragem e de luta pela vida.
José Leandro Lopes Semedo - 5/11/2009

NISA: Evocação e celebração do Santo André


domingo, 16 de outubro de 2016

À FLOR DA PELE: Domingos Paixão - o Homem das Ervas Milagrosas

Completou em Julho, 95 anos, este homem de rosto largo e de mil vivências. Andou pela França e pela Espanha, aprendeu a ler, já homem feito, nas aulas regimentais, enquanto impedido do general Domingos de Oliveira, máxima figura militar no tempo de Salazar. Ao gosto pela leitura juntou um outro ligado às "coisas do campo": a descoberta das propriedades curativas das plantas e das argilas. A paixão pelas "ervas milagrosas" na versão do ti Domingos Semedo de Matos.
Nasceu em Montalvão, ainda o século vinte estava na puberdade, mas mostrava, já, as imagens dos conflitos armados, das doenças e da crise económica, mundial, que iria influenciar a vida de Domingos Semedo de Matos, nascido numa família de fracos recursos e obrigado a compartilhar com três irmãos a côdea de pão do sustento familiar.
Vida extrema, difícil, num lugar do interior, distante de tudo, até do essencial para se viver.
" Os meus pais trabalhavam no campo, eram jornaleiros. Vivia-se mal e logo aos sete anos fui guardar gado. Estive como pastor até aos 10 anos e aos 11 fui trabalhar para as grandes obras de construção da Barragem da Póvoa e Meadas, como servente. Havia lá muita rapaziada de Montalvão, da Póvoa e Meadas e de Castelo de Vide. Dormíamos lá e cada um cozinhava para si. O meu pai estava em França e juntou-se comigo a trabalhar na Barragem. Um ano depois resolveu ir para a ceifa em Espanha, na serra de Santiago e eu fui com ele ganhando menos mas fazendo o mesmo trabalho que os homens. Foi esta a minha escola. Quando terminou esta campanha, o meu pai resolveu ir novamente para França e eu acompanhei-o. Fomos a salto, éramos sete só de Montalvão, isto em 1929. Andámos muito tempo a pé e de comboio. Em Hendaya havia vários empreiteiros à espera de quem chegasse de Espanha ou de Portugal para trabalhar e nós fomos contratados para umas minas de perto de Marselha. Era um trabalho muito duro, mas compensava. As minas produziam um comboio de carvão, todos os dias, extraído à força do braço.
Legalizámo-nos ao fim de 22 meses e podíamos trabalhar em qualquer sítio de França. Foi assim que conheci um pouco daquele país, como Lyon, Paris, Bierzon. Regressámos a Montalvão ao fim de três anos. Aqui toda a gente se ocupava a trabalhar no campo e nós fizemos o mesmo em todos os serviços, a trabalhar de sol a sol.".
Chegava a idade da vida militar, dever a que Domingos Paixão não pôde eximir-se.
" Em 1936, com vinte anos, fui à inspecção militar com muito gosto, pois não sabia ler, tinha uma grande fortaleza e sempre ouvira dizer que se aprendia a ler na tropa. Era o que eu mais queria. Depois da instrução fiquei colocado na Companhia Tripomóvel Montada. O quartel dava impedimentos e eu tive a sorte de ficar como impedido do senhor governador militar de Lisboa, general Domingos de Oliveira. Tirei a 4ª classe, fiz uns exames maravilhosos e ao mesmo tempo tratava de quatro cavalos do senhor general que muito me considerava. Depois de três anos na tropa, já podia meter os papéis para qualquer serviço e assim entrei para a GNR em 1941, onde estive 27 anos. Desde Lisboa ao Alandroal, Crato, Nisa, Marvão, Gáfete e novamente Lisboa."
Casou aos 26 anos, tem quatro filhos, 11 netos e 7 bisnetos. A esposa morreu-lhe há 14 anos e reformado desde os 52, Domingos Paixão retornou a Montalvão, às terras da raia. É aqui, verdadeiramente, que começa a paixão pelas ervas com poderes medicinais.
"Eu herdei da minha mãe o gosto pelas plantas. A minha mãe com 83 anos ainda usava as ervas dos campos para uso dela e para dar às vizinhas. Há 80 anos atrás quem que tinha posses para ir à botica? Além dos tratamentos com plantas e as mézinhas caseiras serem muito mais eficazes. Era assim que tratavam as maleitas, qualquer doença naquele tempo. Eu sempre que vinha a Montalvão, ainda estava na GNR, o meu sentido era para as plantas. Comecei a tratar pessoas com 28 anos e não comecei mais cedo porque a vida não permitia. Comecei por massajar em qualquer parte do corpo, sem ter qualquer conhecimento de medicina e tenho tratado muita gente, todos aqueles que me procuram."
Não sabe explicar o "dom", sabe, isso sim que gosta de tratar as pessoas e que tem tratamento para quase todas as doenças, desde que o paciente saiba dar tempo ao tempo.
"Pelas portas por onde passei desenrasquei as pessoas que me pediram, fosse endireitar um dedo do pé, as costelas, o pescoço, as costas ou qualquer extensão fora do seu lugar. Vou todos os dias para o campo e conheço todas as plantas, mais de 300. Tenho um ficheiro escrito à mão, onde explico o nome das plantas, os fins para que servem, as doenças que combatem e como devem ser aplicadas. Conheço também as propriedades terapêuticas da argila, pois há 40 anos que trabalho com ela, um dos mais poderosos meios naturais de atacar as doenças e que pode ser aplicada em qualquer parte do corpo humano e até nos animais com fins curativos".
A sua casa no Bairro do Bernardino, na entrada de Montalvão, é um verdadeiro "museu das ciências naturais ". Há argila de todas as cores, uma variedade incontável de plantas, devidamente catalogadas com os nomes científicos e populares, com a descrição pormenorizada dos fins a que se destinam. Possui mais de 900 caixas com ervas, uma quantidade enorme de diversas argilas e este valioso espólio que representa muitos anos de trabalho dedicado é a sua grande preocupação. Agora, com mais de 95 anos, o ti Domingos gostaria que alguém se interessasse pela sua arte das plantas curativas, a divulgasse e que não se perdesse tão valioso acervo do nosso património cultural tradicional.
Deixa, por isso, um apelo, quer aos profissionais e comerciantes do ramo das plantas medicinais, quer às entidades autárquicas, no sentido de não deixarem que se perca um espólio que considera valioso, não só do ponto de vista económico, mas, sobretudo, carregado de afectividade.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/9/2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lenda de Amieira do Tejo em crónica de Vanessa Fidalgo

" Na Amieira do Tejo, pitoresca aldeia do distrito de Portalegre, são famosas as tropelias das bruxas e das mouras encantadas, mas também se conta uma curiosa história sobre uma procissão dos terceiros. Uns conseguiam vê-la, outros ouviam-na apenas e outros tantos nunca tinham visto nem ouvido nada e, portanto, eram os que mais se fartavam de falar sobre o assunto. Contavam para quem os quisesse ouvir que a certas horas da noite, pela Quaresma, quem se chegasse à janela e tentasse avistar o horizonte para os lados da calçada de São Pedro, corria o sério risco de ver uma tenebrosa procissão, encabeçada por sombras diáfanas ou até mesmo caveiras encapuzadas. Naqueles súbitos momentos de encontro, as almas penadas desciam do cemitério em fila indiana em direção à vila, espiar os pecados do mundo dos vivos. Pois numa dessas estranhas noites, uma mulher que morava na rua do Arrabalde levantou- -se mais cedo para pôr o pão a cozer e, sem querer, foi à janela ver se o sol já lá vinha. Não o encontrou, mas deu de caras com a procissão das almas... Não se espantou! Como era muito despachada até aproveitou para resolver o problema que a apoquentava naquele momento: não tinha lume para acender a lareira e por isso não hesitou em pedi-lo a um dos mortos-vivos que carregavam as tochas.
O defunto encarou-a, espantado com o desaforo. Suspirou num bafo podre e gelado, mas não se opôs. Entregou-lhe uma vela acesa, pedindo-lhe apenas que a devolvesse no dia seguinte à mesma hora. Mas ela, em vez de bater com a porta e dedicar-se à massa, deixou-se estar no parapeito a roer as unhas e a ver as almas passar silenciosamente na sua penitência errante. Mal amanheceu, correu para o mercado e contou a quem a quis ouvir a maneira como tinha fintado o medo e até conversado com os fantasmas que rondaram a porta. Na noite a seguir, porém, não perdeu pela demora. Quando foi à cantareira buscar a vela para cumprir a prometida entrega até ia desmaiando de susto! No lugar da vela estava a mão pálida e fria do diabo, que a agarrou antes de ter tempo para fugir ou fazer qualquer outra coisa em legítima defesa! Quem lhe falou depois foi o morto. Disse-lhe que deixasse de ser coscuvilheira e que nunca mais se levantasse a meio da madrugada para ver quem passava na rua a desoras, porque quem está está. E quem vai vai!
Vanessa Fidalgo - Correio da Manhã - |02.10.16

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DA CHARNECA (1): O filho de Paiva Couceiro

Em 1911 quando a República era ainda uma criança, a tentar dar os primeiros passos, António, um jovem de Lisboa foi incorporado no Exército Português, mas as suas convicções políticas levá-lo-iam a desertar. Nesse mesmo ano, fugiu para Itália. No Verão de 1912 António Augusto encontrava-se em Roma mas as coisas não lhe corriam bem. Gastara quase todo o seu dinheiro e o futuro apresenta-se pouco risonho. Tomou, então a decisão de regressar. Mal tratado, fraco, e desprovido de posses foi com grandes dificuldades que viajou para Portugal. Entrou no país em Novembro de 1912, pelo concelho de Nisa, mais concretamente por terras de Montalvão. Ainda que cansado percebeu que não era chegada a hora de parar. Montalvão era demasiado grande para esconder um fugitivo. Rumou para Oeste, atravessa as charnecas e avistou as casas de uma pequena aldeia, iniciando a descida para a aldeia de Salavessa.
Os habitantes da aldeia recearam, a princípio, esta figura singular. Quem era? De onde vinha? O que pretendia? António Augusto respondeu aos salavessenses: "Chamo-me António Augusto de Jesus e sou filho de Paiva Couceiro". Henrique de Paiva Couceiro nasceu em Lisboa em 1861. Militar, ganhou fama devido aos combates em que esteve envolvido no final do Século XIX em Angola e Moçambique. Acérrimo defensor da Monarquia, bateu-se pela causa Monárquica, após a implantação da república, tendo-se envolvido em várias acções para derrubar o novo regime. O recém-chegado dizia-se filho deste militar sendo o seu nascimento fruto de uma aventura amorosa.
Com o passar do tempo acabou por se integrar na estrutura social da aldeia. António Augusto lança-se no desafio de ensinar às crianças as primeiras letras. Acanhados, os miúdos lá foram aparecendo. Começa com dois, depois mais dois, até que se constitui aquilo a que hoje chamaríamos uma turma. O novo "professor" prepara as crianças para o exame da terceira classe. Carismático, fez sucesso a ensinar.
Tudo parecia correr bem, mas António era um desertor. Em 1915 as autoridades detectam a sua presença e foi preso em Salavessa. A aldeia viveu momentos de choque, não queriam os seus habitantes acreditar que o senhor António Augusto estava a ser levado pela Guarda. As crianças, sem tempo para se despedirem, acompanharam o seu mestre até ao ribeiro de Fiverlo, já no caminho para o Pé da Serra. O professor leva as mãos amarradas, não pode dizer adeus, vira o rosto sobre o ombro e ensaia um último olhar. As crianças permanecem na margem direita do Fiverlo, não arredam pé, continuando no local até que, finalmente, deixam de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. O seu sonho terminara.
António Augusto de Jesus é julgado e de imediato é deportado para a África Portuguesa. É de África que escreve algumas cartas para Salavessa. Numa das cartas envia uns desenhos. São esboços a carvão. O professor desenhara umas crianças saídas de um quadro que insistira em permanecer na sua mente, a imagem de umas crianças paradas junto às encostas escarpadas do ribeiro de Fiverlo, alunos despedindo-se do mestre.
Em Moçambique, António Augusto cumpriu a sua pena. Na terra onde o pai fora o primeiro, o filho é, agora, um prisioneiro. Mas a história não termina em África. Após cumprir o castigo, António Augusto regressou a Portugal. Ao chegar a Lisboa partiu de imediato. Partiu para o Alentejo, para Nisa, para Salavessa. Foi recebido com alegria e entusiasmo. Apesar de não ser professor oficial, ali permaneceu e ali continuou a fazer o que mais gostava, ensinar crianças e prepará-las para os exames.
Em 1922 o Governo aprovou a construção de uma escola oficial em Salavessa. A nova escola primária ficou pronta e recebeu os primeiros alunos em 1923. Com a escola apareceram os primeiros professores formados e a missão de António Augusto terminou, abandonando definitivamente a aldeia. A partir desta altura afirmaria sempre, no decurso das suas viagens, ser natural de Salavessa, a aldeia que tão bem o acolhera. A aldeia que lhe dera protecção e lhe matara a fome sem olhar ao seu fato roto ou à sua barba esquálida.
Era realmente filho de Paiva Couceiro? Creio que nunca o saberemos. Mas que importa isso. O mais importante foi a formação que proporcionou às crianças, semente lançada à terra, semente do saber e do conhecimento, de importância suprema em todas as sociedades e em todos os tempos. O sonho das crianças não terminou na margem escarpada do ribeiro de Fiverlo. O sonho de saber ler e escrever concretizou-se e serviu de certo modo para contornar obstáculos numa vida de privações.
Quem mo disse foi uma criança. Uma criança de noventa anos. Uma criança que assistiu à sua captura. Acompanhou o professor até onde foi possível, até à velha ponte. Ali permaneceu até ao anoitecer. Até deixar de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. Quem mo disse esteve lá. Disse-lhe adeus. Ali, no caminho de Salavessa para o Pé da Serra. Em cima do velho pontão do Fiverlo trocaram o que pensaram ser o último olhar. Naquele momento a velha ponte foi fronteira de separação, para o aluno entre o sonho e a realidade, para o mestre entre o cárcere e a liberdade.
* Luís Mário Bento- in "Jornal de Nisa"

POETAS DE MONTALVÃO - António José Belo: Memória que o tempo não apaga

Foi um homem multifacetado, o ti António José Belo. Natural de Montalvão, morreu em Nisa, ( " Nisa, terra alentejana / O teu povo é de louvar / Quem lá passa não se engana / Com desejos de voltar" ) com 90 anos, no dia 25 de Junho de 2002.
António José Belo, foi um homem de intervenção, dedicado a uma causa, a da cultura popular, em favor da sua terra, do seu "tchon", que ele cantou e divulgou de modo admirável, num tempo em que os apoios, aos mais diversos níveis, eram irrisórios, e em que a força do querer, a "carolice" e o amor ao chão pátrio, removiam montanhas, transformando os sonhos em realidade.
António José Belo, foi, inquestionavelmente, um homem de sonhos e de horizontes vastos, que não se confinavam ao seu "avião de carreira" ( desenho com o qual identificou as formas de Montalvão) .
Voava e viajava, vezes sem conta, em viagens quase permanentes, através da poesia ( as populares quadras e décimas), das figuras que esculpia num pedaço de madeira, a que dava formas bizarras ou de que aproveitava os contornos, mantendo a simbologia bruta e original, extraída da terra.
Artesão, músico, apresentador de espectáculos, construtor de cenários e de peças de teatro, animador cultural, etnógrafo, nada do que se relacionasse com o seu "Montalvão querido" lhe
passava à margem. O movimento associativo do Monte Alvão e das terras vizinhas muito lhe ficou devendo e a história cultural daquele rincão raiano foi, durante a maior parte do século passado, escrita pelo punho e pelas iniciativas que tinham a "marca" de António José Belo.
Este artista popular, escreveu um livro, terá plantado árvores sem conto, foi carvoeiro, alfaiate, alimentou durante muitos anos na sua terra, a chama da cultura. Promoveu, com reduzidos meios, mas com uma dinâmica extraordinária, formas de participação colectiva dos seus conterrâneos, fossem elas feitas através da música, do teatro, do rancho folclórico, dos saraus artísticos. Aliava, à sua propensão para as artes, uma jovialidade e frescura de espírito, que manteve até final da sua vida. Algumas das décimas, como as que a seguir, reproduzimos, revelam, essa fina particularidade do seu carácter, que tinham apenas, como finalidade, provocar o humor saudável e a boa disposição. As poesias brejeiras, as curiosidades e as histórias com sotaque regional, que deixou no seu livro, ajudam a compreender o homem e a época, e são um contributo inestimável quando se procurar concretizar a ideia de uma monografia de Montalvão.
Morreu o homem, o artista popular. Para que outros possam seguir o exemplo, fica o registo de uma vida e de uma memória que não se apaga.
O que eu fui
Fui poeta e romancista
Fui artesão, fui pintor
Alguns tempos fui fadista
Também fui trabalhador.

Levei a vida a cantar
Em festas e romarias,
Passava noites e dias
Às vezes sem descansar
São tempos para recordar
Enquanto um homem exista
Não há recinto nem pista
Que eu não dançasse o tango
Fui bailador de fandango
Fui poeta e romancista
Fui serrador de madeiras
Trabalho duro e pesado
Mas também cantava o fado
Em festas arraiais e feiras
Eu fazia brincadeiras
E obras de grande valor
Várias vezes fui autor
Fiz desenhos e pinturas
Fazia caricaturas
Fui artesão, fui pintor.

Quando era rapazola
São coisas para não esquecer
Eu aprendi a escrever
Sem nunca ter ido à Escola
Fui tocador de viola
Bandolim e guitarrista
Na qualidade de artista
Muitas coisas disse e fiz
Mas sempre me senti feliz
Nos tempos que fui fadista.

Enquanto Mundo for Mundo
E saibamos dividir
Dá para cantar e rir
O tempo chega para tudo
Fiz o trabalho mais rude
Fiz histórias, fui historiador
De folclore ensaiador
Para pazes, fiz uma ermida
Fiz tantas coisas na vida
Também fui trabalhador
Jornal de Nisa - 1ª série - Maio 2008

terça-feira, 2 de agosto de 2016

AMIEIRA DO TEJO: O estado do património (Maio 2007)

Sombras negras sobre o Calvário
Quem quiser comprovar o estado de abandono em que se encontra o Calvário, é subir lá acima e verificar com os seus próprios olhos. É impressionante como tudo se vai deteriorando tão rapidamente, como impressionante é deixar que isso aconteça a um monumento como aquele que, segundo se pensa como Calvário não tem paralelo no nosso país.
De facto, todo aquele granito foi invadido por musgos, de tal forma que não é difícil imaginar, o que será daqui a meia dúzia de anos, para não falar da cor das paredes, já quase preta.
Antigamente, o monumento tinha como enfeite, uma figueira, muito perto do telhado; hoje, existe no mesmo sítio um silvado que promete alastrar, se nada for feito para travar a sua marcha. Para cúmulo, existe um ninho de cegonha lá em cima, na cruz, que todos os anos vai subindo um "andar", ao mesmo tempo que vai borrifando a cantaria e despejando lixo para o telhado.
Por tudo isto é urgente pôr cobro a tal situação e, se por acaso, humanamente não for possível, poderá haver ainda o recurso às Jans, as novas vizinhas do Senhor dos Passos que se encontram sediadas na zona envolvente do Calvário, mas também aqui poderão surgir algumas dificuldades, uma vez que elas não poderão entrar no Calvário vestidas com os fatos de linho, que elas próprias fiavam e executavam. Resta saber se as Jans estão dispostos a vestir fatos, normais, o que segundo parece, será muito difícil.
Seja como for, o que importa é fazer "barulho" à volta deste assunto e, sobretudo, manter o monumento aberto, porque segundo o senhor Carlos Dias, actual cicerone em serviço, os visitantes continuam a afluir e a admirar o seu potencial artístico, referindo-se muito principalmente, ao altar em granito trabalhado.
E é assim caros amieirenses, quando se pensa que em Amieira, a nossa querida terra está a caminho de ter tudo, eis que surgem novos desafios, novas lutas, novos espinhos, mas, também não é menos verdade que em certos casos, o povo pode decidir, se quiser ver a sua terra no topo e com tudo de importante que os nossos antepassados cá deixaram.
Basta querer, basta lutar, basta ter fé!...
Infelizmente, no nosso país, a burocracia está cada vez mais implantada e, num monumento como o Calvário, cujos proprietários são meio igreja, meio Estado, é demasiadamente complicado falar em obras e, mesmo que algum dia aparecesse algum Mecenas, as dificuldades continuariam a ser um facto visto que, normalmente, o aval positivo demora sempre uma eternidade. Só espero é que no imenso mundo amieirense que busca prosperidade lá fora, haja alguém influente junto de quem decide nestes casos e possa querer ser útil à sua terra. Sei que é difícil, mas, podem crer que se estou a dizer isto é com conhecimento de causa e para o provar, dou-lhes como exemplo, as telas que estão no interior do monumento, que não estão já recuperadas porque ninguém pode tomar essa iniciativa, sem a devida autorização. Mas, quem dá essa autorização? Pensem no que tem desaparecido nesta terra de grandes tradições e pensem, sobretudo, naquela maravilhosa festa dos Passos, que todos lembram ainda com imensa saudade!
* Jorge Pires - in "Jornal de Nisa" - nº 192
Inaugurado Posto de Turismo
Em Amieira do Tejo foi inaugurado, no passado dia 15 de Agosto, o Posto de Turismo desta localidade, uma obra construída pela empresa Ecoedifica SA. A abertura ficou assinalada com a inauguração de uma exposição de pintura do artista naif nisense Augusto Pinheiro, cujo centenário de nascimento é este ano comemorado.
A nova infraestrutura muito poderá contribuir para a divulgação desta antiga vila do priorado do Crato, que chegou a ser sede de concelho e possui um variado e riquíssimo acervo patrimonial, desde o castelo, fundado por D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai do Condestável D. Nuno, às igrejas Matriz e do Calvário, capela da Misericórdia e da Senhora da Sanguinheira, Casa do Balcão, casas senhoriais e outros locais de inegável interesse turístico.
in "Jornal de Nisa" - nº 189

AMIEIRA DO TEJO: Castelo e posto de turismo, fechados

Para que serve o Posto de Turismo?
A pergunta pode parecer descabida. Todos sabem que uma estrutura deste tipo serve, essencialmente, para promover, divulgar, prestar informações sobre tudo o que a nossa terra tenha para mostrar e com interesse turístico. Bem aproveitadas, estas estruturas podem, inclusive, ser um posto de prestação de serviços, complementando os existentes nas Juntas de Freguesia ou, criando, inclusive, outros, em alternativa.
Foi, certamente, a pensar, que uma terra com um património riquíssimo, um monumento nacional e próxima de um grande rio, como Amieira do Tejo, justificaria a instalação de um Posto de Turismo que o mesmo foi ali implantado, gastando-se verbas consideráveis para concretizar este objectivo que, repetimos, terá a sua razão de ser e existir.
Isto, claro, se se mantiver aberto, em funcionamento, prestando o serviço para que foi criado e não permanecer - como acontece actualmente e desde há meses - fechado, como um edifício "fantasma" e sem préstimo. Acho bem que se aproveitem os fundos, os programas, tudo o que vier por bem e sirva o bem público. Mas, assim, não!
A Câmara de Nisa já tinha um mau exemplo junto à Albergaria do Tejo, onde se encontra um quiosque para informações turísticas, inoperacional, como um nódoa na paisagem e que ninguém aproveita. Em Amieira, fecharam o castelo, o Posto de Turismo vai pelo mesmo caminho e ninguém tem a sensatez - o mínimo exigível! - para explicar, uma e outra situação.
Não é assim, seguramente, que se promove uma aldeia que se quer Histórica e a dois passos de um IP. Será que voltamos aos tempos do "trânsito local"?
Responda quem souber! Os amieirenses têm o direito de saber.

Mário Mendes - 24/5/2007

segunda-feira, 18 de julho de 2016

SANTANA: Evocação do Rodrigão

Herói santanense nas Invasões Francesas
Rodrigão, um pastor do Arneiro, é o santanense mais ilustre de que há registo, ao qual, até hoje, não foi feita a merecida homenagem.
Motta e Moura em 1885, no livro Memória Histórica da Notável Vila de Niza, descreve a forma como Rodrigão (assim chamado devido à sua gigantesca estatura) em 1752 contribuiu decisivamente para derrotar as tropas espanholas, que depois de tomarem Almeida e outras praças da Beira dirigiam-se ao Alentejo e acamparam no Açafal dado que o Tejo ia “grosso” devido às chuvas, e as barcas tinham sido retiradas.
Rodrigão tomou a iniciativa e foi a Nisa falar com o brigadeiro Bourgoine que comandava o exército aliado, composto por 2000 soldados portugueses mal armados e indisciplinados, 11 companhias de granadeiros com duas peças de campanha e dois obuses e 400 soldados ingleses; na noite seguinte ele esperou a cavalaria do coronel Lee nos Montes de Baixo, tendo depois organizado a travessia do Tejo no cachão da “Foz de Botes” e guiado as tropas até ao acampamento inimigo.
A pequena força de cavalaria, fez a travessia e o caminho noite dentro, em silêncio, e surpreendeu os espanhóis a dormir, tendo feito grande mortandade “…e fugiram, deixando-nos a bagagem e despojos, não voltaram mais; e a corte de Madrid tratou logo da paz, que em breve se concluiu.”
A homenagem a este ilustre filho da terra, continua por fazer, a ser ignorado, e o seu feito caiu no esquecimento. Os detentores do poder, podem, mas não querem, fazendo jus ao ditado popular que “santos da casa não fazem milagres”.

Joaquim Marques in “O Montesinho” - Notícia de 11/11/2009

sábado, 16 de julho de 2016

Esgotos de Tolosa lançados no Sor sem tratamento

Os esgotos de Tolosa estão a ser lançados, sem qualquer tratamento na Ribeira do Sor. Esta parece ter sido a solução encontrada pela entidade que faz a gestão da ETAR para dar resposta à incapacidade técnica desta estrutura e sossegar as vozes de protesto dos moradores que se viram confrontados, com o mau cheiro, permanente, intenso e nauseabundo. O crime de lesa ambiente e o atentado à saúde pública, esse, está ali, há mais de seis anos, bem à vista de todos.
Inaugurada em Junho de 2003, com a presença do então secretário de Estado do Ambiente, José Eduardo Martins, a ETAR de Tolosa mal chegou a funcionar, desmentindo, na prática, um dos propósitos invocados no acto inaugural: a erradicação um dos maiores problemas com que A Câmara de Nisa se debatia.
A moderna infra-estrutura que o membro do Governo veio inaugurar, há mais de seis anos, não constituiu, afinal, uma “solução imaginativa”, como pretendia, para resolver a questão antiga da inoperacionalidade da primeira ETAR, pois desde o reinício da entrada em funcionamento desta nova unidade de tratamento de águas residuais, foram detectados diversos problemas técnicos, alguns deles situados a montantes e relacionados com a própria tipologia da ETAR, a sua localização e a natureza dos esgotos que deveria tratar.
As obras de requalificação e ampliação custaram, na altura, 185 mil contos e consistiram no aumento da capacidade de tratamento, na implantação de um sistema de gradagem e remoção de óleos e gorduras, na instalação de um novo equipamento electromecânico e a reabilitação de todo o espaço e edifícios existentes.
Esta profunda remodelação, concluída no primeiro semestre de 2003, visava acabar não só com a inoperacionalidade da ETAR e os riscos para a saúde pública que lhe estavam associados, como também dotar as infra-estruturas com capacidade de remoção dos resíduos, adequando o seu funcionamento ao cumprimento da legislação portuguesa e das directivas comunitárias, em matéria de tratamento de detritos, defesa e protecção do meio ambiente.
Nesse sentido foram construídas uma bacia de retenção para caudais em tempo pluvioso, uma lagoa anaeróbia, com um sistema de lamas activada, e duas lagoas de maturação, compreendendo o tratamento de lamas, a digestão e a desidratação das lamas em excesso.
Todas estas estruturas vieram a mostrar-se ineficazes e, devido à falta de um planeamento eficiente e a um estudo exaustivo da malha urbana de Tolosa e do impacto da componente
Industrial dos lacticínios, vieram a tornar-se, nestes seis anos, quase obsoletas e sem préstimo algum.
Os problemas de ordem ambiental, em vez de serem resolvidos com a remodelação da ETAR, pelo contrário, agravaram-se com a paragem forçada da estação de tratamento de esgotos. As lagoas estão secas, vazias, mostrando a inutilidade da sua construção.
O despejo dos esgotos, modernamente designados por águas residuais, sem tratamento, é uma constante desde há seis anos, correndo a céu aberto para o Ribeira do Sor, um dos que “alimenta” a Barragem de Montargil.
É uma acção lesiva e um atentado à saúde e ao ambiente, que põe a nu a ineficácia das entidades que deveriam, em primeiro lugar, garantir a salubridade pública e impedir a poluição e contaminação dos terrenos e linhas de água.
A Câmara de Nisa e a empresa Águas do Norte Alentejano, a quem foi cometida a responsabilidade da gestão da água e do tratamento de esgotos, tiveram tempo suficiente para resolver a situação.
Mas tal não aconteceu. O ribeiro da Carrilha, no qual são despejados os esgotos que passam, sem tratamento pela ETAR, é uma imensa cloaca, em toda a sua extensão até à Ribeira do Sor onde desagua.
O leito da ribeira transformou-se numa pasta cinzenta e esbranquiçada, gordurosa, nojenta, que exala um cheiro pestilento, insuportável.
A situação da ETAR de Tolosa é insustentável e deve ser resolvida com urgência. O atentado ambiental e de lesa saúde pública que representa não pode manter-se, por mais seis anos.
As entidades públicas como a Direcção Regional do Ambiente, as autarquias (Câmara de Nisa e Junta de Tolosa), o Governo Civil e a empresa Águas do Norte Alentejano não podem por mais tempo alhear-se deste problema e fingir que nada sabem.
A reformulação do projecto e a aplicação de novas soluções técnicas prometidas há seis anos, perante a evidência do mau funcionamento da ETAR, não pode manter-se indefinidamente.
Diariamente, a cada segundo e minuto que passa, a Ribeira do Sôr continua a ser o vazadouro incontrolável de toda a espécie de excrementos e resíduos líquidos.
Urge erradicar de vez esta situação.
Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 26/11/09

TOLOSA: Tornado provoca avultados prejuízos

Cerca de 300 azinheiras centenárias foram arrancadas pela força do vento, segunda-feira à tarde, em duas herdades nas zonas de Nisa e Crato, no Alentejo, disse hoje à agência Lusa o proprietário das explorações.
"Foi tudo muito de repente. O barulho do vento parecia helicópteros a passar", relatou hoje António Luz, ao descrever o rasto de destruição.
O vento forte provocou ainda o desmoronamento de um casão agrícola, destelhou dois anexos e destruiu cercas nas herdades da Granja e Azinhal, na freguesia de Tolosa, concelho de Nisa e que se estendem pelo do Crato.
A força do vento, segundo o mesmo agricultor, projectou as chapas do telhado do casão "a mais de um quilómetro de distância".
"Nunca tinha visto nada assim", assegurou António Luz, que se encontrava no local, segunda-feira à tarde.
O proprietário indicou que o vento soprou forte entre as 14,30 e as 15,00 horas, mas "com maior intensidade durante um minuto".
"Foi tudo muito de repente. Só tive tempo de me abrigar num outro casão do monte", recordou o agricultor, que viu, além das azinheiras centenárias, serem arrancados alguns carvalhos.

Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - Fevereiro 2010

TOLOSA: No rasto da memória (1965)

As águas de Tolosa
É um regalo na vida,
Ao pé da água morar.
Quem tem sede vai beber,
Quem tem calma vai nadar.

Mas é desgosto na vila
Um depósito para enganar,
Não dar água p´ra beber
Nem tão pouco p´ra gastar.

E de Tolosa a boa gente
Diz co´uma profunda mágoa!!!
- O depósito é imponente!!!
- É pena não nos dar água!

E a de Gáfete ao passar
Diz escarninha, desdenhosa:
- O depósito é p´ra enfeitar?
Mesmo coisas à Tolosa!!!

- Gastaram um dinheirão,
Sem lhe tirar benefício!
- P´ra que o fizeram então?
Fazê-lo foi desperdício?

- Não foi - diz uma mulher
Que a água há-de vir no dia
De uma santinha qualquer,
Se não for, de Santa Maria.
In "Notícias da Minha Terra" - 15/1/1965

Livro de Ana Leitão “faz luz” sobre a história de Arez

 “Arez, da Idade Média à Idade Moderna”, livro de Ana Santos Leitão, editado pela Colibri, foi apresentado em sessão pública no passado sábado no auditório da Biblioteca Municipal de Nisa, perante numerosa assistência.
A apresentação da autora e do livro, foi feita pelo Prof. Doutor Hermenegildo Fernandes, que referiu tratar-se de um estudo feito para uma tese de mestrado e tendo como base a ligação afectiva da autora ao território.
Ana Leitão agradeceu a presença do público e a colaboração de todas as pessoas, instituições e entidades que tornaram possível a edição do livro, constituindo a mesma um “parto” difícil, uma vez que o estudo desde há muito estava concluído.
Como o título indica, o livro de Ana Santos Leitão percorre a história de Arez, baseada em diversas fontes documentais, desde a Idade Média à Idade Moderna, focando a organização do território, o povoamento e a implantação do núcleo urbano, as relações de vizinhança, a economia e a sociedade.
O estudo permite comprovar que Arez foi Comenda da Ordem de Cristo e desde sempre associada à fundação pelos Templários, contrariamente à descrição heráldica que era feita no seu brasão e no qual constava a cruz da Ordem Militar de Avis.
Este estudo permitiu “fazer luz” sobre esta e outras questões, rectificando um erro e omissão que poderiam tornar-se “históricas”, levando, por isso, à alteração da simbologia heráldica do brasão de Arez.

A autora de “Arez, da Idade Média à Idade Moderna” pretende, agora, alargar o espaço da sua investigação, tendo em vista a preparação do seu doutoramento. Em perspectiva está o estudo do povoamento da região de S. Mamede, tendo como ponto de partida a cidade romana de Ammaia.
Arez, terra senhorial
Arez é actualmente uma freguesia do Concelho de Nisa, integrada no Distrito de Portalegre, na região do Alto Alentejo.
A contextualização introdutória e genérica do espaço onde está inserida, foi baseada no conceito de Fronteira, numa lógica de consolidação da formação territorial pelo povoamento.
Arez era uma terra senhorial, fazendo parte da Vigairaria de Tomar e recebeu Carta de Foral, dada por D. Manuel I, em 20 de Outubro de 1517, em Lisboa.
A autora
Ana Cristina Encarnação Santos Leitão nascida em Lisboa, em 1971, é licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Mestre em História Regional e Local pela mesma Faculdade. Possui o Curso Superior de Turismo e uma Pós-Graduação em Gestão Autárquica Avançada, áreas profissionais a que se tem dedicado desde 1995. É investigadora do Centro de História da FLUL e membro da Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais. No âmbito da investigação histórica e do património cultural, destaca-se a publicação de edições e artigos, participação, colaboração e organização de seminários, colóquios, congressos e workshops nacionais e internacionais.
Actualmente é Bolseira de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia e doutoranda do PIUDH, sediado no ICS da Universidade de Lisboa.
 Mário Mendes - 1 de agosto de 2013

quarta-feira, 13 de julho de 2016

MONTALVÃO: Festa pelo restauro e recuperação da Igreja da Misericórdia

"Montalvão é uma estrela / No seu cabeço a brilhar / Mirando a Beira e Espanha / Tens formosura sem par."
Montalvão esteve em festa no passado dia 31 de Maio, data escolhida pela Irmandade da Santa Casa da Misericórdia para a celebração das solenidades do dia alusivo à padroeira da instituição, mas também para a inauguração das importantes obras de beneficiação e restauro de que foi alvo a Igreja da Misericórdia. Nesse dia e tal como nos versos da poesia popular, o edifício religioso consagrado ao Espírito Santo foi "uma estrela a brilhar", ressurgindo, pujante, da letargia a que foi, durante anos, forçada a suportar.
Perdem-se nas brumas do tempo as origens de Montalvão. Sabe-se que a povoação é muito antiga e foi sede de concelho até finais do século XIX.
Antiga e remontando ao século XVI é a sua Igreja da Misericórdia, um imóvel religioso de inegável valor e que desde há muito reclamava por obras de requalificação e restauro.
A Mesa Administrativa da Misericórdia liderada por Joaquim Maria Costa meteu ombros e mãos à obra, pediu orçamentos, ouviu pareceres, questionou as soluções técnicas e artísticas para o interior do edifício e decidiu avançar com as obras.
O mestre Joaquim Francisco Lopes Martins, tomou a seu cargo o delicado trabalho de restauração de talhas, capelas, altares e arte sacra.
Foi um trabalho paciente e metódico, permanentemente "fiscalizado" pelo olhar experiente do Provedor da Misericórdia.
"Se temos que fazer o trabalho e suportar o investimento, as obras têm que ficar bem feitas", esta a máxima defendida por Joaquim Maria Costa.
Diga-se, em abono de verdade, que quem assistiu às solenidades do dia, sobre a orientação sacerdotal do padre José da Costa e visitou depois, com um olhar mais atento, a "mudança" operada no interior da Igreja do Espírito Santo, não sentiu defraudadas as expectativas e a curiosidade que levava.
Prova disso, as inúmeras felicitações e votos de parabéns expressos, de forma efusiva e sincera, ao mestre Joaquim Martins, enaltecendo-lhe o trabalho realizado.
in "Jornal de Nisa" - 1ª série - 17/6/2008

MONTALVÃO - Ponte sobre o Sever: Um Documento (1995)

Já dizia a canção dos Jáfumega: "A ponte é a passagem prá outra margem". A canção já tem uns bons aninhos, tantos como as promessas de construção da ponte a ligar Cedillo e Montalvão.
"Agora é que é" - garantiam, há meses, políticos de um e de outro lado da fronteira.  A construção da ponte foi assumida pelo governo espanhol, mas é mais fácil um rei - dito defensor dos animais - ser apanhado a matar elefantes, do que as obras da ponte avançarem.
Até lá, permanece uma miragem... A sonhar com a outra margem.

Memória histórica do concelho de Nisa - Montalvão

Uma (real) praga de gafanhotos
Uma imensa praga de gafanhotos assolou, na Primavera de 1902, algumas freguesia do concelho de Nisa, conforme se dá conta da correspondência enviada pela Administração do Concelho ao Governo Civil de Portalegre e aos regedores das freguesias de Montalvão, Alpalhão e S. Simão, certamente as mais atingidas por esta calamidade.
"Os serviços de extinção dos acrídios nos suburbios d´esta villa está sendo feito e dirigido por uma forma digna de todo o louvor. Lavradores e proprietários coadjuvam todos os dias o pessoal encarregado da destruição por meio de fumos.
Querem supplantar em actividade o povo de Montalvão que continua mourejando na batalha. Para Vª Exª fazer uma ideia da actividade empregada, basta dizer-lhe que hontem só 130 pessoas conseguiram apanhar à distancia de 3 kylometros d´esta villa 3000 kylogrammas de gafanhotos ou sejam 200 arrobas. Que quantidade de milhões foram extinctos! Remeto hoje pelo correio a Vª Exª uma caixa cheia d´aquelles insectos, a fim de se dignar pesar uma quantidade d´elles, e depois de contados poder calcular quantos podem entrar n´um kylogramma. Hoje espera-se maior colheita, visto que o tempo melhorou. A destruição por meio de maçaricos a gasolina torna-se dispendiosa e poucos resultados tem dado por ora.
Convem acrescentar que a mortandade feita a fogo não entra no numero de kylogrammas atraz referido.
Deus guarde Vª Exª - Nisa, 16 de Abril de 1902"
Carta ao regedor da freguezia de Montalvão
"Vai hoje o digno agronomo Sr. Sá Vianna a fim de continuar a dar instruções sobre a extinção dos gafanhotos. Vou rogar a Vª Exª que, enquanto se não tomarem outras providencias, se digne ir cumprindo as disposições do Regulamento de 20 de fevereiro ultimo, e que preste todo o auxilio ao mesmo sr. agronomo, na missão de que vai incumbido.
Deus guarde Vª Exª - Nisa, 18 de Abril de 1902