domingo, 16 de outubro de 2016

À FLOR DA PELE: Domingos Paixão - o Homem das Ervas Milagrosas

Completou em Julho, 95 anos, este homem de rosto largo e de mil vivências. Andou pela França e pela Espanha, aprendeu a ler, já homem feito, nas aulas regimentais, enquanto impedido do general Domingos de Oliveira, máxima figura militar no tempo de Salazar. Ao gosto pela leitura juntou um outro ligado às "coisas do campo": a descoberta das propriedades curativas das plantas e das argilas. A paixão pelas "ervas milagrosas" na versão do ti Domingos Semedo de Matos.
Nasceu em Montalvão, ainda o século vinte estava na puberdade, mas mostrava, já, as imagens dos conflitos armados, das doenças e da crise económica, mundial, que iria influenciar a vida de Domingos Semedo de Matos, nascido numa família de fracos recursos e obrigado a compartilhar com três irmãos a côdea de pão do sustento familiar.
Vida extrema, difícil, num lugar do interior, distante de tudo, até do essencial para se viver.
" Os meus pais trabalhavam no campo, eram jornaleiros. Vivia-se mal e logo aos sete anos fui guardar gado. Estive como pastor até aos 10 anos e aos 11 fui trabalhar para as grandes obras de construção da Barragem da Póvoa e Meadas, como servente. Havia lá muita rapaziada de Montalvão, da Póvoa e Meadas e de Castelo de Vide. Dormíamos lá e cada um cozinhava para si. O meu pai estava em França e juntou-se comigo a trabalhar na Barragem. Um ano depois resolveu ir para a ceifa em Espanha, na serra de Santiago e eu fui com ele ganhando menos mas fazendo o mesmo trabalho que os homens. Foi esta a minha escola. Quando terminou esta campanha, o meu pai resolveu ir novamente para França e eu acompanhei-o. Fomos a salto, éramos sete só de Montalvão, isto em 1929. Andámos muito tempo a pé e de comboio. Em Hendaya havia vários empreiteiros à espera de quem chegasse de Espanha ou de Portugal para trabalhar e nós fomos contratados para umas minas de perto de Marselha. Era um trabalho muito duro, mas compensava. As minas produziam um comboio de carvão, todos os dias, extraído à força do braço.
Legalizámo-nos ao fim de 22 meses e podíamos trabalhar em qualquer sítio de França. Foi assim que conheci um pouco daquele país, como Lyon, Paris, Bierzon. Regressámos a Montalvão ao fim de três anos. Aqui toda a gente se ocupava a trabalhar no campo e nós fizemos o mesmo em todos os serviços, a trabalhar de sol a sol.".
Chegava a idade da vida militar, dever a que Domingos Paixão não pôde eximir-se.
" Em 1936, com vinte anos, fui à inspecção militar com muito gosto, pois não sabia ler, tinha uma grande fortaleza e sempre ouvira dizer que se aprendia a ler na tropa. Era o que eu mais queria. Depois da instrução fiquei colocado na Companhia Tripomóvel Montada. O quartel dava impedimentos e eu tive a sorte de ficar como impedido do senhor governador militar de Lisboa, general Domingos de Oliveira. Tirei a 4ª classe, fiz uns exames maravilhosos e ao mesmo tempo tratava de quatro cavalos do senhor general que muito me considerava. Depois de três anos na tropa, já podia meter os papéis para qualquer serviço e assim entrei para a GNR em 1941, onde estive 27 anos. Desde Lisboa ao Alandroal, Crato, Nisa, Marvão, Gáfete e novamente Lisboa."
Casou aos 26 anos, tem quatro filhos, 11 netos e 7 bisnetos. A esposa morreu-lhe há 14 anos e reformado desde os 52, Domingos Paixão retornou a Montalvão, às terras da raia. É aqui, verdadeiramente, que começa a paixão pelas ervas com poderes medicinais.
"Eu herdei da minha mãe o gosto pelas plantas. A minha mãe com 83 anos ainda usava as ervas dos campos para uso dela e para dar às vizinhas. Há 80 anos atrás quem que tinha posses para ir à botica? Além dos tratamentos com plantas e as mézinhas caseiras serem muito mais eficazes. Era assim que tratavam as maleitas, qualquer doença naquele tempo. Eu sempre que vinha a Montalvão, ainda estava na GNR, o meu sentido era para as plantas. Comecei a tratar pessoas com 28 anos e não comecei mais cedo porque a vida não permitia. Comecei por massajar em qualquer parte do corpo, sem ter qualquer conhecimento de medicina e tenho tratado muita gente, todos aqueles que me procuram."
Não sabe explicar o "dom", sabe, isso sim que gosta de tratar as pessoas e que tem tratamento para quase todas as doenças, desde que o paciente saiba dar tempo ao tempo.
"Pelas portas por onde passei desenrasquei as pessoas que me pediram, fosse endireitar um dedo do pé, as costelas, o pescoço, as costas ou qualquer extensão fora do seu lugar. Vou todos os dias para o campo e conheço todas as plantas, mais de 300. Tenho um ficheiro escrito à mão, onde explico o nome das plantas, os fins para que servem, as doenças que combatem e como devem ser aplicadas. Conheço também as propriedades terapêuticas da argila, pois há 40 anos que trabalho com ela, um dos mais poderosos meios naturais de atacar as doenças e que pode ser aplicada em qualquer parte do corpo humano e até nos animais com fins curativos".
A sua casa no Bairro do Bernardino, na entrada de Montalvão, é um verdadeiro "museu das ciências naturais ". Há argila de todas as cores, uma variedade incontável de plantas, devidamente catalogadas com os nomes científicos e populares, com a descrição pormenorizada dos fins a que se destinam. Possui mais de 900 caixas com ervas, uma quantidade enorme de diversas argilas e este valioso espólio que representa muitos anos de trabalho dedicado é a sua grande preocupação. Agora, com mais de 95 anos, o ti Domingos gostaria que alguém se interessasse pela sua arte das plantas curativas, a divulgasse e que não se perdesse tão valioso acervo do nosso património cultural tradicional.
Deixa, por isso, um apelo, quer aos profissionais e comerciantes do ramo das plantas medicinais, quer às entidades autárquicas, no sentido de não deixarem que se perca um espólio que considera valioso, não só do ponto de vista económico, mas, sobretudo, carregado de afectividade.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/9/2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lenda de Amieira do Tejo em crónica de Vanessa Fidalgo

" Na Amieira do Tejo, pitoresca aldeia do distrito de Portalegre, são famosas as tropelias das bruxas e das mouras encantadas, mas também se conta uma curiosa história sobre uma procissão dos terceiros. Uns conseguiam vê-la, outros ouviam-na apenas e outros tantos nunca tinham visto nem ouvido nada e, portanto, eram os que mais se fartavam de falar sobre o assunto. Contavam para quem os quisesse ouvir que a certas horas da noite, pela Quaresma, quem se chegasse à janela e tentasse avistar o horizonte para os lados da calçada de São Pedro, corria o sério risco de ver uma tenebrosa procissão, encabeçada por sombras diáfanas ou até mesmo caveiras encapuzadas. Naqueles súbitos momentos de encontro, as almas penadas desciam do cemitério em fila indiana em direção à vila, espiar os pecados do mundo dos vivos. Pois numa dessas estranhas noites, uma mulher que morava na rua do Arrabalde levantou- -se mais cedo para pôr o pão a cozer e, sem querer, foi à janela ver se o sol já lá vinha. Não o encontrou, mas deu de caras com a procissão das almas... Não se espantou! Como era muito despachada até aproveitou para resolver o problema que a apoquentava naquele momento: não tinha lume para acender a lareira e por isso não hesitou em pedi-lo a um dos mortos-vivos que carregavam as tochas.
O defunto encarou-a, espantado com o desaforo. Suspirou num bafo podre e gelado, mas não se opôs. Entregou-lhe uma vela acesa, pedindo-lhe apenas que a devolvesse no dia seguinte à mesma hora. Mas ela, em vez de bater com a porta e dedicar-se à massa, deixou-se estar no parapeito a roer as unhas e a ver as almas passar silenciosamente na sua penitência errante. Mal amanheceu, correu para o mercado e contou a quem a quis ouvir a maneira como tinha fintado o medo e até conversado com os fantasmas que rondaram a porta. Na noite a seguir, porém, não perdeu pela demora. Quando foi à cantareira buscar a vela para cumprir a prometida entrega até ia desmaiando de susto! No lugar da vela estava a mão pálida e fria do diabo, que a agarrou antes de ter tempo para fugir ou fazer qualquer outra coisa em legítima defesa! Quem lhe falou depois foi o morto. Disse-lhe que deixasse de ser coscuvilheira e que nunca mais se levantasse a meio da madrugada para ver quem passava na rua a desoras, porque quem está está. E quem vai vai!
Vanessa Fidalgo - Correio da Manhã - |02.10.16

NISA E BENFICA: Jogos de Futebol em Outubro


Montalvão revive as suas Tradições Taurinas




ALPALHÃO: Programação Cultural de Outubro

A Junta de Freguesia de Alpalhão divulgou o Programa Cultural das actividades que irá desenvolver durante o mês de Outubro, organizadas pela autarquia e colectividades da freguesia.
O programa dá realce à Comemoração do 5 de Outubro (Implantação da República), informa sobre a realização do Mercado Mensal no dia 6 e de mais uma iniciativa que apela à participação dos cidadãos: o V Voluntariado Ambiental, a ter lugar no sábado, dia 8, e no qual todos os alpalhoenses podem participar, ajudando na limpeza e preservação ambiental.
Em data ainda a definir, a Junta promove a 1ª Caminhada pelos Caminhos de Santiago, iniciativa que terá programa próprio. A 21 realiza-se a 10ª  Reunião ordinária do executivo de Freguesia e no dia seguinte, 22 Outubro, a sede do Grupo Ciclo Alpalhoense anima-se com uma sessão de Fados à Capela, aberta a todos os amantes da canção popular.
Entre 23 de Outubro e 19 de Novembro decorre o Concurso e posterior Exposição de Fotografias tendo como tema "O Brilho das Rugas". A Junta de Freguesia irá editar programa elucidativo desta iniciativa cuja exposição decorrerá no Centro Cultural de Alpalhão.
Também a 23 de Outubro, tem lugar a realização do Passeio da Junta de Freguesia que levará os fregueses de Alpalhão em visita ao Alqueva e à cidade de Évora.