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sábado, 12 de setembro de 2026
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
MONTALVÃO (Nisa): Está a chegar o 2º número da revista "Êlhér!"
Não saiu no Verão, sai agora a público em plena época natalícia, tão prenhe de recordações e tradições, o segundo número da revista "Êlhér!", um projecto de dinamização cultural a que João Pedro Fidalgo e outros amigos meteram ombros. A segunda edição está mesmo a chegar e vale a pena uma deslocação no dia 30, à vila raiana, para folhear, ler e desfrutar, em primeira mão, o número dois da Revista Cultural de Montalvão. Temas de grande interesse e capazes de captar a atenção dos leitores não faltam nesta nova "Êlhér!", de acordo com o resumo feito pelo seu director e que gostosamente transcrevemos.
" Um dos documentos mais antigos, e sem dúvida dos mais interessantes sobre Montalvão que se conhece, é o trabalho que Duarte de Armas efectuou em 1509‑10 para o Livro das Fortalezas, desenhando duas vistas panorâmicas de Montalvão. Estas duas ilustrações poderiam ser o mote e a inspiração central deste número da revista, na medida em que se uma imagem antiga funciona como um documento incontornável na procura do que terá sido o nosso passado, a imagem também nos mostra o impacto do desenho e da comunicação visual que para além da riqueza descritiva que os desenhos e ilustrações nos dão, tanto do ponto de vista da reconstituição histórica como do valor estético acrescentado, traz‑nos também a componente apelativa e de fácil leitura que nos agarra facilmente a todos.
Desta forma, podemos com certeza afirmar que um dos pontos altos que este número nos dá, se deve muito, à contribuição que Luís Pedro Cruz e Nicole Jakobs deram na forma como desenharam e ilustraram Montalvão, dando o seu cunho pessoal para a maneira como vemos e olhamos Montalvão a partir das suas obras e estilos diferentes de ver a paisagem urbana e natural.
Se a imagem e mais propriamente o desenho são formas de indiscutível comunicação histórica no caso das ilustrações de Duarte de Armas, que dizer das pré‑históricas gravuras do Tejo que se encontram aqui pelo artigo de Mário Monteiro Benjamim que aborda a sua recuperação e interpretação num projecto para o futuro. Também no que ao poder da imagem diz respeito, chega‑nos um muito bem explicado artigo de Ana Fraústo Morão mostrando‑nos os rituais presentes na adoração naquele que é o principal símbolo religioso montalvanense, que faz mexer toda uma comunidade em seu redor, numa comunhão religiosa que extravasa para a tradicional festa anual da vila.
Num dos pontos fortes que a revista cultiva, a História, destaque para o artigo de Jorge Rosa, que nos conta a história particular de João Tomás Pinto, um ilustre montalvanense, que defendeu, por certo, altos valores como a liberdade e a justiça. Ainda no âmbito da História, e diria também da simbologia histórica montalvanense, temos o esmerado e importante artigo de Luís Gonçalves Gomes que nos apresenta Vasco Fernandes – o último Mestre Templário, artigo que já veio na demanda da escrita para esta revista, à criação de um livro com detalhes e uma investigação irrepreensível por parte do autor.
Um outro dos pontos de confluência que se sublinha neste número da Êlhér!, é a abordagem ao espaço urbano e a interpretação que este nos leva a fazer, tanto do ponto de vista da sua história e da sua implantação, como da forma como se constituiu o povoado na disposição de ruas e na construção das casas de habitação que fazem do lugar as especificidades próprias de afirmação da Vila histórica, que é Montalvão. Neste ponto, é de destacar o texto de António Borges Abel em (A)rriscar em Montalvão, e o artigo de João Fidalgo, Da origem da Vila à Casa Típica em Montalvão que abordam a formação urbana de Montalvão e a tipologia arquitectónica das habitações tradicionais.
Da literatura fica‑nos um retrato intimista escrito por Andreia Costa que nos traz, através da sua prosa, uma viagem às casas e aos espaços dos nossos avós, a um tempo não muito distante de saudades e tempos felizes no regaço dos montalvanenses avós de outrora.
Agora, Êlhér!"
domingo, 13 de dezembro de 2020
MONTALVÃO: 500 anos do Foral
2012 é ano de comemorações dos 500 anos dos Forais de Nisa e de Montalvão. No caso de Montalvão, o processo de comemorações a realizar no próximo ano foi já iniciado através de duas associações daquela freguesia que marcaram para sábado, dia 25, sessões de esclarecimento, procurando envolver a população nas celebrações de tão importante acontecimento.
Assim, por iniciativa da Associação Salavessa Viva realiza-se uma sessão pelas 15 horas, no edifício da ex-Escola Primária em Salavessa.
Mais tarde, pelas 17,30 h na antiga Escola de Montalvão, organizada pela Associação Vamos à Vila terá lugar nova reunião, tendo por objectivo elucidar a população sobre a importância do documento, assinado em 1512 pelo rei D. Manuel I.
Ambas as sessões (em Salavessa e Montalvão) serão conduzidas por Carla Sequeira do Museu do Bordado e do Barro de Nisa.
A Carta de Foral de Montalvão foi concedida pelo rei D. Manuel I em 22 de Novembro de 1512, reconhecendo, assim, a importância desta vila.
"Portal de Nisa" - 25/6/2011
sábado, 12 de dezembro de 2020
OPINIÃO: "Lembras-te do Zé da Silva?"
Foi com esta pergunta que um amigo me abordou, há dias.
O Zé da Silva? Claro que me lembrava do Zé da Silva.
A memória recuou, dez, vinte, trinta anos e lá estávamos nós em Montalvão, na Salavessa, em Nisa, em todas as terras do concelho e outras do distrito, nos tempos de utopia e criação revolucionária, que se seguiram ao 25 de Abril.
O José da Silva Costa no auge da irreverência dos seus 18 anos, cabeleira loura, espessa e longa, "à beatle", queria, tal como todos nós, "mudar o mundo", fazer a revolução socialista, expressa em palavras de ordem como " a terra a quem a trabalha" e tantas outras.
A dureza do trabalho nos campos e a magreza dos salários do trabalhador rural, a emigração para França, a guerra colonial, era a realidade de uma terra, a sua, onde se ouviam histórias intermináveis, sobre a odisseia do contrabando, os relatos dramáticos da guerra civil espanhola, com o ribombar dos canhões, a ouvirem-se, ali bem perto, do outro lado do Sever, a perseguição e o exílio dos republicanos, dos "rojos", muitos deles acolhidos nas povoações da raia.
Não foi, por isso, difícil, antes, natural, ao Zé da Silva, fazer a sua opção política, ainda bastante jovem e no tempo de todas as ideias e inquietações.
Um tractor, um coreto, escada ou pequena elevação onde pudesse sobressair a "voz dos oradores" tudo servia para, nesses tempos de febril agitação, falar às pessoas e tentar passar-lhes a mensagem política e incutir-lhes a ideia de participação na "coisa pública".
Sem estudos por aí além, mas já imbuído do gosto e do prazer pela leitura, o Zé da Silva, surpreendia-nos, amiúde, pelas tiradas filosóficas e pelo arrojo da argumentação, ainda que, o seu espírito militante, fosse orientado noutras direcções.
De um momento para outro, deixei de ver o Zé da Silva. Como muitos jovens deste concelho e país, não esperou para ver o futuro acontecer. Partiu, foi à procura dele. Soube que estivera nos EUA, que de quando em vez vinha a Montalvão, mas há muitos, muitos anos, que o não via.
Até que… Lembraste do Zé da Silva? Claro que lembrava. Ali estava ele, trinta anos depois, à minha frente, primeiro, na plateia dos "opositores" (o único, por sinal) ao titular da cadeira do concurso da RTP "Um contra todos".
Era ele, sem dúvida. O mesmo ar sereno, as ideias amadurecidas, a dialéctica sempre actuante e as respostas a surgirem, certeiras e precisas.
Era fácil adivinhar – conhecendo o Zé da Silva -, onde aquilo iria terminar. Vinte e seis perguntas, sem um trunfo ou uma falha, sequer. Algumas, de domínios do saber que, especialistas, provavelmente, não acertariam. Mas, o Zé da Silva, serena e desconcertantemente, assim como que a dizer que não estava ali, ia falando do seu Alentejo, das suas vivências e das suas raízes, perante a admiração, quase embevecida, do José Carlos Malato.
Foi, pois, sem surpresa, que se sentou na cadeira de concorrente e de onde, com a mesma calma e descontracção, "viajou" até à memória dos seus pais e avós, às histórias que ouvira sobre a "Raia dos Medos", e daí, com desassombro, elogiou os trabalhos para a televisão de Moita Flores, numa crítica, directa e implícita à própria RTP.
O Zé da Silva venceu o concurso. Não me perguntem, quantos mil euros, levou para casa.
Por mim, fiquei feliz, por revisitá-lo, mesmo através da televisão. Não tanto pelo dinheiro que ganhou, mas, apenas, por saber que, trinta anos depois, aquele "bichinho" que se introduziu em nós e chamado utopia, continua bem vivo.
E que, ali, perante uma imensa plateia, que é o "país televisivo", o Zé da Silva mais não fez do que ser igual a si próprio: um cidadão do mundo e alentejano da raia, do Sever, já sem fantasmas nem medos e, hoje, um traço de união.
João da Cruz - Jornal de Nisa nº 222 - Jan.2007
domingo, 16 de outubro de 2016
À FLOR DA PELE: Domingos Paixão - o Homem das Ervas Milagrosas
Completou em Julho, 95 anos, este homem de rosto largo e de
mil vivências. Andou pela França e pela Espanha, aprendeu a ler, já homem
feito, nas aulas regimentais, enquanto impedido do general Domingos de
Oliveira, máxima figura militar no tempo de Salazar. Ao gosto pela leitura
juntou um outro ligado às "coisas do campo": a descoberta das
propriedades curativas das plantas e das argilas. A paixão pelas "ervas
milagrosas" na versão do ti Domingos Semedo de Matos.
Nasceu em Montalvão, ainda o século vinte estava na
puberdade, mas mostrava, já, as imagens dos conflitos armados, das doenças e da
crise económica, mundial, que iria influenciar a vida de Domingos Semedo de
Matos, nascido numa família de fracos recursos e obrigado a compartilhar com
três irmãos a côdea de pão do sustento familiar.
Vida extrema, difícil, num lugar do interior, distante de
tudo, até do essencial para se viver.
" Os meus pais trabalhavam no campo, eram jornaleiros.
Vivia-se mal e logo aos sete anos fui guardar gado. Estive como pastor até aos
10 anos e aos 11 fui trabalhar para as grandes obras de construção da Barragem
da Póvoa e Meadas, como servente. Havia lá muita rapaziada de Montalvão, da
Póvoa e Meadas e de Castelo de Vide. Dormíamos lá e cada um cozinhava para si.
O meu pai estava em França e juntou-se comigo a trabalhar na Barragem. Um ano
depois resolveu ir para a ceifa em Espanha, na serra de Santiago e eu fui com
ele ganhando menos mas fazendo o mesmo trabalho que os homens. Foi esta a minha
escola. Quando terminou esta campanha, o meu pai resolveu ir novamente para
França e eu acompanhei-o. Fomos a salto, éramos sete só de Montalvão, isto em
1929. Andámos muito tempo a pé e de comboio. Em Hendaya havia vários
empreiteiros à espera de quem chegasse de Espanha ou de Portugal para trabalhar
e nós fomos contratados para umas minas de perto de Marselha. Era um trabalho
muito duro, mas compensava. As minas produziam um comboio de carvão, todos os
dias, extraído à força do braço.
Legalizámo-nos ao fim de 22 meses e podíamos
trabalhar em qualquer sítio de França. Foi assim que conheci um pouco daquele
país, como Lyon, Paris, Bierzon. Regressámos a Montalvão ao fim de três anos.
Aqui toda a gente se ocupava a trabalhar no campo e nós fizemos o mesmo em
todos os serviços, a trabalhar de sol a sol.".
Chegava a idade da vida militar, dever a que Domingos Paixão
não pôde eximir-se.
" Em 1936, com vinte anos, fui à inspecção militar com
muito gosto, pois não sabia ler, tinha uma grande fortaleza e sempre ouvira
dizer que se aprendia a ler na tropa. Era o que eu mais queria. Depois da
instrução fiquei colocado na Companhia Tripomóvel Montada. O quartel dava
impedimentos e eu tive a sorte de ficar como impedido do senhor governador
militar de Lisboa, general Domingos de Oliveira. Tirei a 4ª classe, fiz uns
exames maravilhosos e ao mesmo tempo tratava de quatro cavalos do senhor
general que muito me considerava. Depois de três anos na tropa, já podia meter
os papéis para qualquer serviço e assim entrei para a GNR em 1941, onde estive
27 anos. Desde Lisboa ao Alandroal, Crato, Nisa, Marvão, Gáfete e novamente
Lisboa."
Casou aos 26 anos, tem quatro filhos, 11 netos e 7 bisnetos.
A esposa morreu-lhe há 14 anos e reformado desde os 52, Domingos Paixão
retornou a Montalvão, às terras da raia. É aqui, verdadeiramente, que começa a
paixão pelas ervas com poderes medicinais.
"Eu herdei da minha mãe o gosto pelas plantas. A minha
mãe com 83 anos ainda usava as ervas dos campos para uso dela e para dar às
vizinhas. Há 80 anos atrás quem que tinha posses para ir à botica? Além dos
tratamentos com plantas e as mézinhas caseiras serem muito mais eficazes. Era
assim que tratavam as maleitas, qualquer doença naquele tempo. Eu sempre que
vinha a Montalvão, ainda estava na GNR, o meu sentido era para as plantas. Comecei
a tratar pessoas com 28 anos e não comecei mais cedo porque a vida não
permitia. Comecei por massajar em qualquer parte do corpo, sem ter qualquer
conhecimento de medicina e tenho tratado muita gente, todos aqueles que me
procuram."
Não sabe explicar o "dom", sabe, isso sim que
gosta de tratar as pessoas e que tem tratamento para quase todas as doenças,
desde que o paciente saiba dar tempo ao tempo.
"Pelas portas por onde passei desenrasquei as pessoas
que me pediram, fosse endireitar um dedo do pé, as costelas, o pescoço, as
costas ou qualquer extensão fora do seu lugar. Vou todos os dias para o campo e
conheço todas as plantas, mais de 300. Tenho um ficheiro escrito à mão, onde
explico o nome das plantas, os fins para que servem, as doenças que combatem e
como devem ser aplicadas. Conheço também as propriedades terapêuticas da
argila, pois há 40 anos que trabalho com ela, um dos mais poderosos meios
naturais de atacar as doenças e que pode ser aplicada em qualquer parte do
corpo humano e até nos animais com fins curativos".
A sua casa no Bairro do Bernardino, na entrada de Montalvão,
é um verdadeiro "museu das ciências naturais ". Há argila de todas as
cores, uma variedade incontável de plantas, devidamente catalogadas com os
nomes científicos e populares, com a descrição pormenorizada dos fins a que se
destinam. Possui mais de 900 caixas com ervas, uma quantidade enorme de
diversas argilas e este valioso espólio que representa muitos anos de trabalho
dedicado é a sua grande preocupação. Agora, com mais de 95 anos, o ti Domingos
gostaria que alguém se interessasse pela sua arte das plantas curativas, a
divulgasse e que não se perdesse tão valioso acervo do nosso património
cultural tradicional.
Deixa, por isso, um apelo, quer aos profissionais e comerciantes
do ramo das plantas medicinais, quer às entidades autárquicas, no sentido de
não deixarem que se perca um espólio que considera valioso, não só do ponto de
vista económico, mas, sobretudo, carregado de afectividade.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/9/2011
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