sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AMIEIRA DO TEJO: 12 Anos depois houve “Passos Mágicos”

Há já alguns anos escrevi uma poesia dedicada ao Calvário. Essa poesia, até hoje, ainda não foi publicada, mas considero-a um dos meus melhores trabalhos, devido, precisamente, ao significado que encerra. Por hoje, vou apenas “repescar” uma quadra dessa poesia:
Hei-de guardar na memória aquela fachada linda
E pensarei que um dia os Passos voltarão
Hei-de pensar que a força do povo não morreu ainda
E que não é difícil manter a tradição!
Está aí a resposta do povo amieirense. Não vou falar aqui dos doze longos anos que passaram, porque entendo será melhor não mexer no passado, mas, sim, falar dessa fantástica magia que este acto transmite e que contagia toda a população amieirense. Haverá, no entanto, quem não compreenda o porquê de algumas alterações, entre as quais, tudo ser feito apenas num dia.
Caros amieirenses, o mais importante foi conseguido, não vamos agora querer tudo de uma vez, alegremo-nos, sim, pela retoma deste acto que, apesar de tudo, voltou a mobilizar muitos conterrâneos que movidos pela tal magia, não quiseram deixar de estar presentes.
É impressionante a maneira como os cristãos seguem esta cerimónia: tanta emoção, tanta fé, tantas lágrimas!
Tudo isto atinge o auge quando, na Praça Nuno Álvares, à sombra daquele majestoso monumento (há quase um ano encerrado, que vergonha!) se revive o encontro de Maria com o seu filho a caminho do doloroso Calvário.
Que cenário, aquele! Geograficamente, para este evento, Amieira é, realmente, uma terra privilegiada. Aquele castelo é como uma fortaleza onde Jesus Cristo foi condenado injustamente. E o Calvário? Lá em cima, no Monte, local onde Jesus foi crucificado pelos algozes, depois de torturado quase até à morte.
Depois do sermão, sempre esperado com alguma ansiedade, todos se alinham e a procissão segue o seu rumo pelas ruas sinuosas, algumas delas medievais, como a das Olarias, do Engenho, de Palhais. Esperemos que um dia, se possa sair da Praça já ao pôr do sol, pois, só assim e à luz dos archotes e das velas, se poderá observar das terras da Beira, o ziguezaguear dos fiéis como acontecia nos tempos em que os Passos de Amieira deram brado e eram considerados os mais bem conseguidos de todo o Distrito. Foi, de facto, lindo, recordar os tempos de meninos quando, em cada Passo, cantávamos os versos dedicados ao Senhor.

Nesse tempo, todos queríamos ser escolhidos para ganhar um pacotinho de amêndoas que, naqueles tempos serviam para enganar o estômago bastante debilitado.
Acho que era assim, naquela adoçar de boca, que nos era transmitida a tal magia que se ia mantendo pela nossa vida fora.
Não quero terminar sem dirigir a minha admiração e também o meu aplauso àqueles Irmãos do Senhor dos Passos que tudo fizeram para revitalizar este importante acontecimento, devolvendo assim à nossa terra, uma tradição de longos anos e que muitos já consideravam irremediavelmente perdida. Que o Senhor os ilumine e lhes dê muita saúde ao longo das suas vidas.
Jorge Pires - 2007

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

MEMÓRIA: O Senhor Simplício

Um dos últimos Contrabandistas de Montalvão
No dia 1 de Novembro de 2009, Dia de Todos os Santos, faleceu, no Hospital de Cascais, o veterano montalvanense, senhor Simplício António Belo, com 98 anos de vida.
Consigo parte uma memória viva dos tempos difíceis que se viveram no século XX, neste Alentejo pobre e isolado, à mercê dos grandes senhores da terra que impunham as suas regras na base do medo. Partiu este homem bom, com que gostei de partilhar algumas conversas desses tempos difíceis que foram os do contrabando em Montalvão.
Em jeito de brincadeira tinha-lhe prometido passar para um gravador digital todas as suas imensas memórias, mas por falta de tempo (meu) nunca tal aconteceu, e assim hoje partiu a última memória viva deste Montalvão, esquecido e apagado pelo tempo.
Para conseguir aquilo que a terra teimava em não dar, tal como tantos outros jovens da época, aproveitou o vigor de outros tempos para carregar fardos de 40 e 50 quilos pela calada da noite, palmilhando trilhos de perigo entre Portugal e Espanha. Perdeu a conta às vezes que levou tabaco para "Casalinho" (Espanha) ou trouxe bacalhau para Portugal. Chegou a passar de tudo, desde burros a sabão, enfrentando guardas-fiscais e "carabineiros", passava as noites num autêntico "leva e traz".
Estes homens e mulheres que a vida vai levando lentamente, não podem partir sem deixar na nossa memória colectiva o seu testemunho sempre presente de como foram as suas vivências noutros tempos. E sinto que fico em "divida" perante este homem, por não ter feito o trabalho de recolha que se imponha para memória futura.
Devo dizer que também já se impunha uma estátua dedicada a este conjunto de montalvanenses que dedicaram uma vida (ou parte dela) ao contrabando, afim de perpetuar as vivências difíceis porque passaram os nossos antepassados.
E assim desta forma deixo a minha homenagem e este e outros Simplícios, pelo exemplo de coragem e de luta pela vida.
José Leandro Lopes Semedo - 5/11/2009

domingo, 16 de outubro de 2016

À FLOR DA PELE: Domingos Paixão - o Homem das Ervas Milagrosas

Completou em Julho, 95 anos, este homem de rosto largo e de mil vivências. Andou pela França e pela Espanha, aprendeu a ler, já homem feito, nas aulas regimentais, enquanto impedido do general Domingos de Oliveira, máxima figura militar no tempo de Salazar. Ao gosto pela leitura juntou um outro ligado às "coisas do campo": a descoberta das propriedades curativas das plantas e das argilas. A paixão pelas "ervas milagrosas" na versão do ti Domingos Semedo de Matos.
Nasceu em Montalvão, ainda o século vinte estava na puberdade, mas mostrava, já, as imagens dos conflitos armados, das doenças e da crise económica, mundial, que iria influenciar a vida de Domingos Semedo de Matos, nascido numa família de fracos recursos e obrigado a compartilhar com três irmãos a côdea de pão do sustento familiar.
Vida extrema, difícil, num lugar do interior, distante de tudo, até do essencial para se viver.
" Os meus pais trabalhavam no campo, eram jornaleiros. Vivia-se mal e logo aos sete anos fui guardar gado. Estive como pastor até aos 10 anos e aos 11 fui trabalhar para as grandes obras de construção da Barragem da Póvoa e Meadas, como servente. Havia lá muita rapaziada de Montalvão, da Póvoa e Meadas e de Castelo de Vide. Dormíamos lá e cada um cozinhava para si. O meu pai estava em França e juntou-se comigo a trabalhar na Barragem. Um ano depois resolveu ir para a ceifa em Espanha, na serra de Santiago e eu fui com ele ganhando menos mas fazendo o mesmo trabalho que os homens. Foi esta a minha escola. Quando terminou esta campanha, o meu pai resolveu ir novamente para França e eu acompanhei-o. Fomos a salto, éramos sete só de Montalvão, isto em 1929. Andámos muito tempo a pé e de comboio. Em Hendaya havia vários empreiteiros à espera de quem chegasse de Espanha ou de Portugal para trabalhar e nós fomos contratados para umas minas de perto de Marselha. Era um trabalho muito duro, mas compensava. As minas produziam um comboio de carvão, todos os dias, extraído à força do braço.
Legalizámo-nos ao fim de 22 meses e podíamos trabalhar em qualquer sítio de França. Foi assim que conheci um pouco daquele país, como Lyon, Paris, Bierzon. Regressámos a Montalvão ao fim de três anos. Aqui toda a gente se ocupava a trabalhar no campo e nós fizemos o mesmo em todos os serviços, a trabalhar de sol a sol.".
Chegava a idade da vida militar, dever a que Domingos Paixão não pôde eximir-se.
" Em 1936, com vinte anos, fui à inspecção militar com muito gosto, pois não sabia ler, tinha uma grande fortaleza e sempre ouvira dizer que se aprendia a ler na tropa. Era o que eu mais queria. Depois da instrução fiquei colocado na Companhia Tripomóvel Montada. O quartel dava impedimentos e eu tive a sorte de ficar como impedido do senhor governador militar de Lisboa, general Domingos de Oliveira. Tirei a 4ª classe, fiz uns exames maravilhosos e ao mesmo tempo tratava de quatro cavalos do senhor general que muito me considerava. Depois de três anos na tropa, já podia meter os papéis para qualquer serviço e assim entrei para a GNR em 1941, onde estive 27 anos. Desde Lisboa ao Alandroal, Crato, Nisa, Marvão, Gáfete e novamente Lisboa."
Casou aos 26 anos, tem quatro filhos, 11 netos e 7 bisnetos. A esposa morreu-lhe há 14 anos e reformado desde os 52, Domingos Paixão retornou a Montalvão, às terras da raia. É aqui, verdadeiramente, que começa a paixão pelas ervas com poderes medicinais.
"Eu herdei da minha mãe o gosto pelas plantas. A minha mãe com 83 anos ainda usava as ervas dos campos para uso dela e para dar às vizinhas. Há 80 anos atrás quem que tinha posses para ir à botica? Além dos tratamentos com plantas e as mézinhas caseiras serem muito mais eficazes. Era assim que tratavam as maleitas, qualquer doença naquele tempo. Eu sempre que vinha a Montalvão, ainda estava na GNR, o meu sentido era para as plantas. Comecei a tratar pessoas com 28 anos e não comecei mais cedo porque a vida não permitia. Comecei por massajar em qualquer parte do corpo, sem ter qualquer conhecimento de medicina e tenho tratado muita gente, todos aqueles que me procuram."
Não sabe explicar o "dom", sabe, isso sim que gosta de tratar as pessoas e que tem tratamento para quase todas as doenças, desde que o paciente saiba dar tempo ao tempo.
"Pelas portas por onde passei desenrasquei as pessoas que me pediram, fosse endireitar um dedo do pé, as costelas, o pescoço, as costas ou qualquer extensão fora do seu lugar. Vou todos os dias para o campo e conheço todas as plantas, mais de 300. Tenho um ficheiro escrito à mão, onde explico o nome das plantas, os fins para que servem, as doenças que combatem e como devem ser aplicadas. Conheço também as propriedades terapêuticas da argila, pois há 40 anos que trabalho com ela, um dos mais poderosos meios naturais de atacar as doenças e que pode ser aplicada em qualquer parte do corpo humano e até nos animais com fins curativos".
A sua casa no Bairro do Bernardino, na entrada de Montalvão, é um verdadeiro "museu das ciências naturais ". Há argila de todas as cores, uma variedade incontável de plantas, devidamente catalogadas com os nomes científicos e populares, com a descrição pormenorizada dos fins a que se destinam. Possui mais de 900 caixas com ervas, uma quantidade enorme de diversas argilas e este valioso espólio que representa muitos anos de trabalho dedicado é a sua grande preocupação. Agora, com mais de 95 anos, o ti Domingos gostaria que alguém se interessasse pela sua arte das plantas curativas, a divulgasse e que não se perdesse tão valioso acervo do nosso património cultural tradicional.
Deixa, por isso, um apelo, quer aos profissionais e comerciantes do ramo das plantas medicinais, quer às entidades autárquicas, no sentido de não deixarem que se perca um espólio que considera valioso, não só do ponto de vista económico, mas, sobretudo, carregado de afectividade.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 7/9/2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DA CHARNECA (1): O filho de Paiva Couceiro

Em 1911 quando a República era ainda uma criança, a tentar dar os primeiros passos, António, um jovem de Lisboa foi incorporado no Exército Português, mas as suas convicções políticas levá-lo-iam a desertar. Nesse mesmo ano, fugiu para Itália. No Verão de 1912 António Augusto encontrava-se em Roma mas as coisas não lhe corriam bem. Gastara quase todo o seu dinheiro e o futuro apresenta-se pouco risonho. Tomou, então a decisão de regressar. Mal tratado, fraco, e desprovido de posses foi com grandes dificuldades que viajou para Portugal. Entrou no país em Novembro de 1912, pelo concelho de Nisa, mais concretamente por terras de Montalvão. Ainda que cansado percebeu que não era chegada a hora de parar. Montalvão era demasiado grande para esconder um fugitivo. Rumou para Oeste, atravessa as charnecas e avistou as casas de uma pequena aldeia, iniciando a descida para a aldeia de Salavessa.
Os habitantes da aldeia recearam, a princípio, esta figura singular. Quem era? De onde vinha? O que pretendia? António Augusto respondeu aos salavessenses: "Chamo-me António Augusto de Jesus e sou filho de Paiva Couceiro". Henrique de Paiva Couceiro nasceu em Lisboa em 1861. Militar, ganhou fama devido aos combates em que esteve envolvido no final do Século XIX em Angola e Moçambique. Acérrimo defensor da Monarquia, bateu-se pela causa Monárquica, após a implantação da república, tendo-se envolvido em várias acções para derrubar o novo regime. O recém-chegado dizia-se filho deste militar sendo o seu nascimento fruto de uma aventura amorosa.
Com o passar do tempo acabou por se integrar na estrutura social da aldeia. António Augusto lança-se no desafio de ensinar às crianças as primeiras letras. Acanhados, os miúdos lá foram aparecendo. Começa com dois, depois mais dois, até que se constitui aquilo a que hoje chamaríamos uma turma. O novo "professor" prepara as crianças para o exame da terceira classe. Carismático, fez sucesso a ensinar.
Tudo parecia correr bem, mas António era um desertor. Em 1915 as autoridades detectam a sua presença e foi preso em Salavessa. A aldeia viveu momentos de choque, não queriam os seus habitantes acreditar que o senhor António Augusto estava a ser levado pela Guarda. As crianças, sem tempo para se despedirem, acompanharam o seu mestre até ao ribeiro de Fiverlo, já no caminho para o Pé da Serra. O professor leva as mãos amarradas, não pode dizer adeus, vira o rosto sobre o ombro e ensaia um último olhar. As crianças permanecem na margem direita do Fiverlo, não arredam pé, continuando no local até que, finalmente, deixam de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. O seu sonho terminara.
António Augusto de Jesus é julgado e de imediato é deportado para a África Portuguesa. É de África que escreve algumas cartas para Salavessa. Numa das cartas envia uns desenhos. São esboços a carvão. O professor desenhara umas crianças saídas de um quadro que insistira em permanecer na sua mente, a imagem de umas crianças paradas junto às encostas escarpadas do ribeiro de Fiverlo, alunos despedindo-se do mestre.
Em Moçambique, António Augusto cumpriu a sua pena. Na terra onde o pai fora o primeiro, o filho é, agora, um prisioneiro. Mas a história não termina em África. Após cumprir o castigo, António Augusto regressou a Portugal. Ao chegar a Lisboa partiu de imediato. Partiu para o Alentejo, para Nisa, para Salavessa. Foi recebido com alegria e entusiasmo. Apesar de não ser professor oficial, ali permaneceu e ali continuou a fazer o que mais gostava, ensinar crianças e prepará-las para os exames.
Em 1922 o Governo aprovou a construção de uma escola oficial em Salavessa. A nova escola primária ficou pronta e recebeu os primeiros alunos em 1923. Com a escola apareceram os primeiros professores formados e a missão de António Augusto terminou, abandonando definitivamente a aldeia. A partir desta altura afirmaria sempre, no decurso das suas viagens, ser natural de Salavessa, a aldeia que tão bem o acolhera. A aldeia que lhe dera protecção e lhe matara a fome sem olhar ao seu fato roto ou à sua barba esquálida.
Era realmente filho de Paiva Couceiro? Creio que nunca o saberemos. Mas que importa isso. O mais importante foi a formação que proporcionou às crianças, semente lançada à terra, semente do saber e do conhecimento, de importância suprema em todas as sociedades e em todos os tempos. O sonho das crianças não terminou na margem escarpada do ribeiro de Fiverlo. O sonho de saber ler e escrever concretizou-se e serviu de certo modo para contornar obstáculos numa vida de privações.
Quem mo disse foi uma criança. Uma criança de noventa anos. Uma criança que assistiu à sua captura. Acompanhou o professor até onde foi possível, até à velha ponte. Ali permaneceu até ao anoitecer. Até deixar de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. Quem mo disse esteve lá. Disse-lhe adeus. Ali, no caminho de Salavessa para o Pé da Serra. Em cima do velho pontão do Fiverlo trocaram o que pensaram ser o último olhar. Naquele momento a velha ponte foi fronteira de separação, para o aluno entre o sonho e a realidade, para o mestre entre o cárcere e a liberdade.
* Luís Mário Bento- in "Jornal de Nisa"

POETAS DE MONTALVÃO - António José Belo: Memória que o tempo não apaga

Foi um homem multifacetado, o ti António José Belo. Natural de Montalvão, morreu em Nisa, ( " Nisa, terra alentejana / O teu povo é de louvar / Quem lá passa não se engana / Com desejos de voltar" ) com 90 anos, no dia 25 de Junho de 2002.
António José Belo, foi um homem de intervenção, dedicado a uma causa, a da cultura popular, em favor da sua terra, do seu "tchon", que ele cantou e divulgou de modo admirável, num tempo em que os apoios, aos mais diversos níveis, eram irrisórios, e em que a força do querer, a "carolice" e o amor ao chão pátrio, removiam montanhas, transformando os sonhos em realidade.
António José Belo, foi, inquestionavelmente, um homem de sonhos e de horizontes vastos, que não se confinavam ao seu "avião de carreira" ( desenho com o qual identificou as formas de Montalvão) .
Voava e viajava, vezes sem conta, em viagens quase permanentes, através da poesia ( as populares quadras e décimas), das figuras que esculpia num pedaço de madeira, a que dava formas bizarras ou de que aproveitava os contornos, mantendo a simbologia bruta e original, extraída da terra.
Artesão, músico, apresentador de espectáculos, construtor de cenários e de peças de teatro, animador cultural, etnógrafo, nada do que se relacionasse com o seu "Montalvão querido" lhe
passava à margem. O movimento associativo do Monte Alvão e das terras vizinhas muito lhe ficou devendo e a história cultural daquele rincão raiano foi, durante a maior parte do século passado, escrita pelo punho e pelas iniciativas que tinham a "marca" de António José Belo.
Este artista popular, escreveu um livro, terá plantado árvores sem conto, foi carvoeiro, alfaiate, alimentou durante muitos anos na sua terra, a chama da cultura. Promoveu, com reduzidos meios, mas com uma dinâmica extraordinária, formas de participação colectiva dos seus conterrâneos, fossem elas feitas através da música, do teatro, do rancho folclórico, dos saraus artísticos. Aliava, à sua propensão para as artes, uma jovialidade e frescura de espírito, que manteve até final da sua vida. Algumas das décimas, como as que a seguir, reproduzimos, revelam, essa fina particularidade do seu carácter, que tinham apenas, como finalidade, provocar o humor saudável e a boa disposição. As poesias brejeiras, as curiosidades e as histórias com sotaque regional, que deixou no seu livro, ajudam a compreender o homem e a época, e são um contributo inestimável quando se procurar concretizar a ideia de uma monografia de Montalvão.
Morreu o homem, o artista popular. Para que outros possam seguir o exemplo, fica o registo de uma vida e de uma memória que não se apaga.
O que eu fui
Fui poeta e romancista
Fui artesão, fui pintor
Alguns tempos fui fadista
Também fui trabalhador.

Levei a vida a cantar
Em festas e romarias,
Passava noites e dias
Às vezes sem descansar
São tempos para recordar
Enquanto um homem exista
Não há recinto nem pista
Que eu não dançasse o tango
Fui bailador de fandango
Fui poeta e romancista
Fui serrador de madeiras
Trabalho duro e pesado
Mas também cantava o fado
Em festas arraiais e feiras
Eu fazia brincadeiras
E obras de grande valor
Várias vezes fui autor
Fiz desenhos e pinturas
Fazia caricaturas
Fui artesão, fui pintor.

Quando era rapazola
São coisas para não esquecer
Eu aprendi a escrever
Sem nunca ter ido à Escola
Fui tocador de viola
Bandolim e guitarrista
Na qualidade de artista
Muitas coisas disse e fiz
Mas sempre me senti feliz
Nos tempos que fui fadista.

Enquanto Mundo for Mundo
E saibamos dividir
Dá para cantar e rir
O tempo chega para tudo
Fiz o trabalho mais rude
Fiz histórias, fui historiador
De folclore ensaiador
Para pazes, fiz uma ermida
Fiz tantas coisas na vida
Também fui trabalhador
Jornal de Nisa - 1ª série - Maio 2008

terça-feira, 2 de agosto de 2016

AMIEIRA DO TEJO: O estado do património (Maio 2007)

Sombras negras sobre o Calvário
Quem quiser comprovar o estado de abandono em que se encontra o Calvário, é subir lá acima e verificar com os seus próprios olhos. É impressionante como tudo se vai deteriorando tão rapidamente, como impressionante é deixar que isso aconteça a um monumento como aquele que, segundo se pensa como Calvário não tem paralelo no nosso país.
De facto, todo aquele granito foi invadido por musgos, de tal forma que não é difícil imaginar, o que será daqui a meia dúzia de anos, para não falar da cor das paredes, já quase preta.
Antigamente, o monumento tinha como enfeite, uma figueira, muito perto do telhado; hoje, existe no mesmo sítio um silvado que promete alastrar, se nada for feito para travar a sua marcha. Para cúmulo, existe um ninho de cegonha lá em cima, na cruz, que todos os anos vai subindo um "andar", ao mesmo tempo que vai borrifando a cantaria e despejando lixo para o telhado.
Por tudo isto é urgente pôr cobro a tal situação e, se por acaso, humanamente não for possível, poderá haver ainda o recurso às Jans, as novas vizinhas do Senhor dos Passos que se encontram sediadas na zona envolvente do Calvário, mas também aqui poderão surgir algumas dificuldades, uma vez que elas não poderão entrar no Calvário vestidas com os fatos de linho, que elas próprias fiavam e executavam. Resta saber se as Jans estão dispostos a vestir fatos, normais, o que segundo parece, será muito difícil.
Seja como for, o que importa é fazer "barulho" à volta deste assunto e, sobretudo, manter o monumento aberto, porque segundo o senhor Carlos Dias, actual cicerone em serviço, os visitantes continuam a afluir e a admirar o seu potencial artístico, referindo-se muito principalmente, ao altar em granito trabalhado.
E é assim caros amieirenses, quando se pensa que em Amieira, a nossa querida terra está a caminho de ter tudo, eis que surgem novos desafios, novas lutas, novos espinhos, mas, também não é menos verdade que em certos casos, o povo pode decidir, se quiser ver a sua terra no topo e com tudo de importante que os nossos antepassados cá deixaram.
Basta querer, basta lutar, basta ter fé!...
Infelizmente, no nosso país, a burocracia está cada vez mais implantada e, num monumento como o Calvário, cujos proprietários são meio igreja, meio Estado, é demasiadamente complicado falar em obras e, mesmo que algum dia aparecesse algum Mecenas, as dificuldades continuariam a ser um facto visto que, normalmente, o aval positivo demora sempre uma eternidade. Só espero é que no imenso mundo amieirense que busca prosperidade lá fora, haja alguém influente junto de quem decide nestes casos e possa querer ser útil à sua terra. Sei que é difícil, mas, podem crer que se estou a dizer isto é com conhecimento de causa e para o provar, dou-lhes como exemplo, as telas que estão no interior do monumento, que não estão já recuperadas porque ninguém pode tomar essa iniciativa, sem a devida autorização. Mas, quem dá essa autorização? Pensem no que tem desaparecido nesta terra de grandes tradições e pensem, sobretudo, naquela maravilhosa festa dos Passos, que todos lembram ainda com imensa saudade!
* Jorge Pires - in "Jornal de Nisa" - nº 192
Inaugurado Posto de Turismo
Em Amieira do Tejo foi inaugurado, no passado dia 15 de Agosto, o Posto de Turismo desta localidade, uma obra construída pela empresa Ecoedifica SA. A abertura ficou assinalada com a inauguração de uma exposição de pintura do artista naif nisense Augusto Pinheiro, cujo centenário de nascimento é este ano comemorado.
A nova infraestrutura muito poderá contribuir para a divulgação desta antiga vila do priorado do Crato, que chegou a ser sede de concelho e possui um variado e riquíssimo acervo patrimonial, desde o castelo, fundado por D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai do Condestável D. Nuno, às igrejas Matriz e do Calvário, capela da Misericórdia e da Senhora da Sanguinheira, Casa do Balcão, casas senhoriais e outros locais de inegável interesse turístico.
in "Jornal de Nisa" - nº 189

sábado, 16 de julho de 2016

Esgotos de Tolosa lançados no Sor sem tratamento

Os esgotos de Tolosa estão a ser lançados, sem qualquer tratamento na Ribeira do Sor. Esta parece ter sido a solução encontrada pela entidade que faz a gestão da ETAR para dar resposta à incapacidade técnica desta estrutura e sossegar as vozes de protesto dos moradores que se viram confrontados, com o mau cheiro, permanente, intenso e nauseabundo. O crime de lesa ambiente e o atentado à saúde pública, esse, está ali, há mais de seis anos, bem à vista de todos.
Inaugurada em Junho de 2003, com a presença do então secretário de Estado do Ambiente, José Eduardo Martins, a ETAR de Tolosa mal chegou a funcionar, desmentindo, na prática, um dos propósitos invocados no acto inaugural: a erradicação um dos maiores problemas com que A Câmara de Nisa se debatia.
A moderna infra-estrutura que o membro do Governo veio inaugurar, há mais de seis anos, não constituiu, afinal, uma “solução imaginativa”, como pretendia, para resolver a questão antiga da inoperacionalidade da primeira ETAR, pois desde o reinício da entrada em funcionamento desta nova unidade de tratamento de águas residuais, foram detectados diversos problemas técnicos, alguns deles situados a montantes e relacionados com a própria tipologia da ETAR, a sua localização e a natureza dos esgotos que deveria tratar.
As obras de requalificação e ampliação custaram, na altura, 185 mil contos e consistiram no aumento da capacidade de tratamento, na implantação de um sistema de gradagem e remoção de óleos e gorduras, na instalação de um novo equipamento electromecânico e a reabilitação de todo o espaço e edifícios existentes.
Esta profunda remodelação, concluída no primeiro semestre de 2003, visava acabar não só com a inoperacionalidade da ETAR e os riscos para a saúde pública que lhe estavam associados, como também dotar as infra-estruturas com capacidade de remoção dos resíduos, adequando o seu funcionamento ao cumprimento da legislação portuguesa e das directivas comunitárias, em matéria de tratamento de detritos, defesa e protecção do meio ambiente.
Nesse sentido foram construídas uma bacia de retenção para caudais em tempo pluvioso, uma lagoa anaeróbia, com um sistema de lamas activada, e duas lagoas de maturação, compreendendo o tratamento de lamas, a digestão e a desidratação das lamas em excesso.
Todas estas estruturas vieram a mostrar-se ineficazes e, devido à falta de um planeamento eficiente e a um estudo exaustivo da malha urbana de Tolosa e do impacto da componente
Industrial dos lacticínios, vieram a tornar-se, nestes seis anos, quase obsoletas e sem préstimo algum.
Os problemas de ordem ambiental, em vez de serem resolvidos com a remodelação da ETAR, pelo contrário, agravaram-se com a paragem forçada da estação de tratamento de esgotos. As lagoas estão secas, vazias, mostrando a inutilidade da sua construção.
O despejo dos esgotos, modernamente designados por águas residuais, sem tratamento, é uma constante desde há seis anos, correndo a céu aberto para o Ribeira do Sor, um dos que “alimenta” a Barragem de Montargil.
É uma acção lesiva e um atentado à saúde e ao ambiente, que põe a nu a ineficácia das entidades que deveriam, em primeiro lugar, garantir a salubridade pública e impedir a poluição e contaminação dos terrenos e linhas de água.
A Câmara de Nisa e a empresa Águas do Norte Alentejano, a quem foi cometida a responsabilidade da gestão da água e do tratamento de esgotos, tiveram tempo suficiente para resolver a situação.
Mas tal não aconteceu. O ribeiro da Carrilha, no qual são despejados os esgotos que passam, sem tratamento pela ETAR, é uma imensa cloaca, em toda a sua extensão até à Ribeira do Sor onde desagua.
O leito da ribeira transformou-se numa pasta cinzenta e esbranquiçada, gordurosa, nojenta, que exala um cheiro pestilento, insuportável.
A situação da ETAR de Tolosa é insustentável e deve ser resolvida com urgência. O atentado ambiental e de lesa saúde pública que representa não pode manter-se, por mais seis anos.
As entidades públicas como a Direcção Regional do Ambiente, as autarquias (Câmara de Nisa e Junta de Tolosa), o Governo Civil e a empresa Águas do Norte Alentejano não podem por mais tempo alhear-se deste problema e fingir que nada sabem.
A reformulação do projecto e a aplicação de novas soluções técnicas prometidas há seis anos, perante a evidência do mau funcionamento da ETAR, não pode manter-se indefinidamente.
Diariamente, a cada segundo e minuto que passa, a Ribeira do Sôr continua a ser o vazadouro incontrolável de toda a espécie de excrementos e resíduos líquidos.
Urge erradicar de vez esta situação.
Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 26/11/09

Livro de Ana Leitão “faz luz” sobre a história de Arez

 “Arez, da Idade Média à Idade Moderna”, livro de Ana Santos Leitão, editado pela Colibri, foi apresentado em sessão pública no passado sábado no auditório da Biblioteca Municipal de Nisa, perante numerosa assistência.
A apresentação da autora e do livro, foi feita pelo Prof. Doutor Hermenegildo Fernandes, que referiu tratar-se de um estudo feito para uma tese de mestrado e tendo como base a ligação afectiva da autora ao território.
Ana Leitão agradeceu a presença do público e a colaboração de todas as pessoas, instituições e entidades que tornaram possível a edição do livro, constituindo a mesma um “parto” difícil, uma vez que o estudo desde há muito estava concluído.
Como o título indica, o livro de Ana Santos Leitão percorre a história de Arez, baseada em diversas fontes documentais, desde a Idade Média à Idade Moderna, focando a organização do território, o povoamento e a implantação do núcleo urbano, as relações de vizinhança, a economia e a sociedade.
O estudo permite comprovar que Arez foi Comenda da Ordem de Cristo e desde sempre associada à fundação pelos Templários, contrariamente à descrição heráldica que era feita no seu brasão e no qual constava a cruz da Ordem Militar de Avis.
Este estudo permitiu “fazer luz” sobre esta e outras questões, rectificando um erro e omissão que poderiam tornar-se “históricas”, levando, por isso, à alteração da simbologia heráldica do brasão de Arez.

A autora de “Arez, da Idade Média à Idade Moderna” pretende, agora, alargar o espaço da sua investigação, tendo em vista a preparação do seu doutoramento. Em perspectiva está o estudo do povoamento da região de S. Mamede, tendo como ponto de partida a cidade romana de Ammaia.
Arez, terra senhorial
Arez é actualmente uma freguesia do Concelho de Nisa, integrada no Distrito de Portalegre, na região do Alto Alentejo.
A contextualização introdutória e genérica do espaço onde está inserida, foi baseada no conceito de Fronteira, numa lógica de consolidação da formação territorial pelo povoamento.
Arez era uma terra senhorial, fazendo parte da Vigairaria de Tomar e recebeu Carta de Foral, dada por D. Manuel I, em 20 de Outubro de 1517, em Lisboa.
A autora
Ana Cristina Encarnação Santos Leitão nascida em Lisboa, em 1971, é licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Mestre em História Regional e Local pela mesma Faculdade. Possui o Curso Superior de Turismo e uma Pós-Graduação em Gestão Autárquica Avançada, áreas profissionais a que se tem dedicado desde 1995. É investigadora do Centro de História da FLUL e membro da Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais. No âmbito da investigação histórica e do património cultural, destaca-se a publicação de edições e artigos, participação, colaboração e organização de seminários, colóquios, congressos e workshops nacionais e internacionais.
Actualmente é Bolseira de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia e doutoranda do PIUDH, sediado no ICS da Universidade de Lisboa.
 Mário Mendes - 1 de agosto de 2013

sábado, 18 de junho de 2016

Poetas da nossa terra: O ti António Branco (o Forneiro)

Um hino à natureza
Este homem merecia um livro. A sua poesia, sobre o campo, as flores, a faina agrícola, a vida social e cultural de Montalvão, a sede de justiça e de progresso, as desigualdades económicas e sociais, são um "monumento" escrito que retrata muito do quotidiano das terras da raia e de um Portugal cinzento e obscurantista sobrevivendo sob uma das mais negras e prolongadas ditaduras do século XX . O Ti António Branco, o Forneiro,  poeta popular, nascido, criado e falecido em Montalvão, em décimas plenas de força e pujança, ou, mais nostálgicas, cheias de lirismo e com tons musicais que nos remetem para o bucolismo dos campos, constituem das mais belas páginas escritas sobre Montalvão.
Do trabalho nos campos de Montalvão e Salavessa, onde se avista a Beira e a Espanha, arrancou o ti António Branco, as estevas para alimentar o forno, seu principal ganha-pão, mas também a experiência de um "diálogo" permanente com a mãe Natureza, que ele registava na memória e recitava à noite, em versos de "quarenta pontos" (décimas), nas tabernas, entre um e outro copo do tinto, que "premiava" as cantigas ao desafio.
A Primavera
Na Primavera de Flores
Vestem-se os campos de gala
Alegria dos pastores
Canta o canário na jaula
I
Canta o rouxinol no prado
No meio da árvore sombria
Canta alegre a cotovia
Canta o triste encarcerado
Canta o cuco, brinca o gado
Alegram-se os lavradores
Mudam as aves de cores
Quando andam fazendo o ninho
Canta todo o passarinho
Na Primavera de Flores
II
Canta alegre o jardineiro
Por ver as flores a brilhar
Canta o lavrador a lavrar
E na quinta canta o quinteiro
Canta o melro no loureiro
A gaivota sobre a vala
Canta quem tem boa fala
Canta até quem a não tem
Cantam os Anjos também
Vestem-se os campos de gala.
III
Só tu vens abastecer
Ó Primavera real
Pastos para tanto animal
Pão para a gente comer
Muitas lãs para fazer
Fatos de todas as cores
Tu com essas tuas flores
Sustentam muito vivente
Cresce o leite de repente
Alegria dos pastores.
IV
Quando me quero levantar
Em manhã de Primavera
Debaixo da atmosfera
Não ouço senão cantar
Grilos com as asas a tinar
A cotovia na alta escala
A andorinha nem se fala
Dá-nos gosto o rouxinol
Logo assim que nasce o sol 
Canta o canário na jaula.

António Branco

domingo, 5 de junho de 2016

BAILE DOS TREMOÇOS: Santana revive a tradição

Era sexta-feira, dia 13, véspera de casamento na aldeia do Arneiro (Santana-Nisa).
A coincidência do dia e da data, sempre associadas a “dias negros e de azar” para os mais supersticiosos, foi, pelo contrário, celebrada como um dia de festa e o reviver de tradições.
No Largo dos Pelómes, o principal da aldeia (este topónimo, noutros sítios pronuncia-se Pelames e terá a ver com as indústrias de curtumes, muito vulgares nas terras do interior), o povo juntou-se e recordou as despedidas de solteiro dos anos 50 e 60, quando o Baile do Tremoço trazia toda a população para a rua e fazia-a compartilhar da festa comunitária, promovida pelos pais dos noivos e que era a derradeira noite de solteiros dos jovens nubentes.
Tal como há 50 anos, houve música a rodos, não com o acordeonista ou o tocador de gaita de beiços como em tempos mais recuados, mas com um grupo de música popular, em cima de um palco improvisado, que tocou e cantou até fora de horas e a que se juntaram muitos artistas do povo, homens e mulheres, que recordaram, em uníssono, as modas de antigamente.





Para uma noite de festa tradicional, não faltaram os tremoços, o vinho e os bolos, distribuídos pelos pais dos noivos. E a dança, o “bálho” popular que inundou de alegria e contentamento todos os intervenientes nesta magnífica jornada de festa, convívio e espírito comunitário, ainda bem patente na freguesia de Santana e não apenas na utilização e partilha dos “fornos do povo”.
Para que o registo ficasse completo, nem sequer faltou a televisão e o Baile do Tremoço, no dia seguinte, através dos canais da SIC, percorreu o país e o mundo, fazendo lembrar que, apesar da crise e da perda de confiança, os portugueses ainda encontram motivos para sorrir, juntar-se e festejar, unidos por um ideal maior e que neste caso se chamou “reavivar da tradição”.
in "Jornal de Nisa" - nº 258- 25/06/08