sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Coisas da Vida (XXVI)

Mais do meu tempo
* Sofia Tello Gonçalves
Vens almoçar? Não, respondi. E jantar, vens? Parei, olhei para ela, sempre fora uma mulher corpulenta que se recusara a dobrar com a idade, mas, as rugas no rosto não mentem e, idade já tinha alguma. Vivia sozinha, dantes, fora uma casa cheia, agora, era ela, o passáro e por vezes as vozes do apoio domiciliário.
Nunca lá vivi, mas cresci lá, a minha casa era ao lado. Habituei-me à sua como se fosse minha, e com o passar do tempo, também era minha. Depois da sua queda, habituei-me a passar por lá de manhã, antes de ir trabalhar. Tinha sempre algo pronto para eu levar.
E jantar, vens? Repetiu a pergunta. O carinho que sinto por ela é infinito, ela foi a minha mão que embala. Claro, respondi. Era a terceira vez que o fazia nessa semana, o facto de me ter divorciado, dava-lhe mais do meu tempo. Senão viesse, já sabia que não comia. Nunca gostou de fazer as refeiçôes sozinha, e a vida pregara-lhe uma partida. Começar o seu dia, sabendo que eu ia jantar, era o seu entretém, sabia que se assim não fosse, o vazio enchia ainda mais aquela casa. Este, era o seu motivo...
Passámos ainda alguns anos nesta rotina, até que um dia, a vida acabou para ela.
Fiquei com o pássaro.
Hoje, sozinha, também já não janto.
Publicado no "Jornal de Nisa"

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

COISAS DA CORTE DAS AREIAS (LXXVII)

Muro de Sirga - No rio Tejo em Amieira
Especiais Particularidades (6)
- Sirgadouros do Tejo - Um encanto para fruir
* João Francisco Lopes
No princípio era o rio, torrencial e de cristalinas águas, chegado aqui percorridos iam 120 léguas, descendo a Ibérica Península desde Albarracin, como ensinava o mestre na Primária, frente ao mapa. Rio de fascinante beleza, variada e abundante fauna, talvez por isso os primeiros homens aqui chegados, olharam, gostaram do que viram e fixaram-se. Ao rio atribuíram-lhe um nome. Tejo, lhe chamam agora e pela abastança acreditaram estar a sobrevivência assegurada.
Em tempos ainda pré-históricos, nos finais do neolítico, diz quem sabe, que os homens, provavelmente agradecidos aos deuses, gravaram nas pedras do leito ou das margens do rio, milhares de notáveis figuras, imagens observadas por eles no dia a dia, palmilhando a terra, ou contemplando o céu. É a Arte Rupestre que temos por ali, nossa, porque na margem esquerda, que os nossos autarcas, em parceria com os de Vila Velha de Ródão se aprestam em valorizar para atrair os turistas.
Entretanto, outros povos foram chegando, novos hábitos foram sendo adquiridos, diferentes formas de viver, de explorar, de olhar em volta e sempre mais longe.
É um prazer contemplar e agradável de passear aquele corredor empedrado que acompanha o Tejo na margem esquerda, desde a Barca da Amieira até por perto da foz do Figueiró (200 metros para jusante).
Lageado com pedras dispostas na horizontal, tem em média, de largura, cerca de dois metros e eleva-se aproximadamente 6/7 metros acima do nível das águas.
Estas "estradas", por alguns habitantes de Amieira chamadas de "fachina", são os designados muros de Sirga, ou Sirgadouros, se bem que em Malpica do Tejo os apelidem de "Estradinha", preferindo os espanhóis nossos vizinhos e do rio, chamar-lhe "Estrada Velha" ou "Caminho do Rei", como nos foi dito por um amigo de natural de Cedillo, o senhor Francisco Negrito Gonzales, cujos avós eram portugueses, nascidos em Nisa.
Estes caminhos eram utilizados desde há séculos por homens e animais, no reboque rio acima dos barcos, principalmente nos cachões, impeditivos de utilisar os remos. É certo que não exercem hoje aquela função, ainda assim é sempre aprazível percorrer passeando aqueles curtos quilómetros, da Barca da Amieira até ao Figueiró, tanto mais que o Sirgadouro se encontra agora perfeitamente restaurado, graças a uma decisão louvável do actual executivo municipal, que com esta acção não só defendeu o património concelhio, mas igualmente investiu no turismoque acabará por render.
Quando e por quem foram mandados construir os Sirgadouros? Foi a obra executada de uma só vez ou foi-o por fases?
Vários são os autores que nos falam da beleza e riqueza do rio, da sua extensão, dos seus desníveis, da turbulência ou sossego das suas águas, mas sobre os sirgadouros pouco nos dizem e quando o fazem nem sempre afinam pelo mesmo diapasão, daí resultando uma "música" confusa.
Não terá aquela obra sido executada por fases e sujeita ao longo dos anos a intervenções de restauro e ampliação, justificando assim e de certo modo, o desencontro na informação?
Araújo Correia, na obra de que é autor - O Tejo - , a pág. 61 cita o ten.-coronel de Engenharia, Anastácio Rodrigues, que em 1812 estudou a navegabilidade do Tejo, de Abrantes a Malpica, por mandado real, informando dos embaraços naturais e artificiais, realçando a falta total de sirgadouros, que ele entendia como caminhos cómodos, de três ou quatro palmos de largo, ao menos. É esta a única referência a sirgadouros que se encontra naquela valiosa obra, o que nos parece manifestamente pouco.
Em "Viagens do Olhar", obra editada pelo Centro Municipal de Cultura e Desenvolvimento de Vila Velha de Ródão, refere-se que em 1849, um decreto de D. Maria II autorizava o Governo a "dispender durante o próximo futuro ano económico até à quantia de dez contos de réis em trabalhos de demarcação do alveo do Tejo, na parte que decorre de Valada até Abrantes, como também nas obras de quebramento de rochedos, da desobstrução do alveo do mesmo rio e da construção de caminhos de sirga, na parte que decorre de Abrantes até Vila Velha de Ródão". Efectivamente, estes caminhos foram construídos e ali estão hoje ainda nas duas margens do rio, a jusante da Barragem do Fratel.
Na revista Estudos de Castelo Branco, nº 27 de 1 de Julho de 1968, volta-se a citar o ofício do coronel Anastácio Rodrigues, enviado a 17 de Julho de 1812 a D. Miguel Pereira Forjaz, acerca da navegação do Tejo, de Abrantes a Malpica. No que concerne ao nosso concelho de Nisa, a página 164 é feita uma chamada para a necessidade, junto da Barca da Amieira, de "abrir quinhentos passos, ao menos, de sirgadouro nesta margem esquerda".
Ainda num estudo publicado no diário de Badajoz "Hoy", de 22 de Agosto de 1964 e no ano seguinte em separata de "Terra Alta", nº 406, extraído da obra "As ordens militares, aquém e além Sever", o seu autor, dr. José Martins Barata, ao referir-se ao vasto território da Açafa, que incluía a quase totalidade do actual concelho de Nisa e que foi doado por D. Sancho I à Ordem do Templo, escreveu o seguinte: "Outro ponto a considerar diz respeito à população que dispersa e escassa, era homogénea, como sempre temos defendido. Nem de outra forma convinha aos Templários que precisavam ter assegurada a navegação no Tejo, a favor da corrente ou utilizando os caminhos de sirga marginais, romanos, que ainda hoje se podem reconhecer. O Tejo fornecia um excelente meio de comunicação naquele tempo de poucos e maus caminhos".
Autores há que referem a construção dos sirgadouros no período filipino. Este últimos autor recua muito mais no tempo e atribui a obra aos romanos, oq ue não se estranha, sendo o Tejo, como menciona Estrabão, "um rio productor de ouro" que eles exploraram. O Conhal é um bom exemplo.
É de louvar a actividade da Associação de Estudos do Alto Tejo, de Vila Velha de Ródão, pela constante promoção do rio. Lembramos, a propósito, que há meia dúzia de anos, organizaram o 1º passeio pelos muros de sirga, nas duas margens, da Barragem do Fratel à Barca da Amieira, iniciativa já continuada entre nós por parte da Inijovem e se deseja seja repetida regularmente, permitindo aos passeantes apreciar a beleza do rio e eventualmente descobrir-lhe alguns dos seus segredos e da sua história, história onde Nisa ocupa o seu espaço.
Documentos há ("Beira Baixa" - Pág. 144) atestando que há 130 anos (1875), entre Vila Velha de Ródão e Abrantes ainda se moviam 278 barcos, com um fluxo, nos dois sentidos que, globalmente, representava 1360 toneladas.
Vieram os barcos porque havia um rio; foram-se os barcos porque chegou o comboio, "o comboio da Beira Baixa", o comboio do nosso rio.
Rio que vai ser factor de desenvolvimento turístico no nosso Concelho de Nisa.
* Publicado no "Jornal de Nisa"

terça-feira, 18 de novembro de 2008

NISA - Brilhante presença na Exposição " Do Palácio de Belém"

No passado fim de semana (dias 15 e 16) foi a vez do concelho de Nisa marcar presença na Exposição "Do Palácio de Belém" patente ao público no Convento de S. Bernardo em Portalegre. Oportunidade para mostrar os seus produtos tradicionais mais característicos, desde os enchidos ao queijo de Nisa, e com particular destaque para o seu incomparável artesanato, muito apreciado pelos visitantes.
A animação musical contou com a participação dos grupos "Contradanças de Alpalhão" e "Tocá Marchar", de Tolosa, que emprestaram o brilho, o colorido e beleza dos seus trajes à participação no concelho numa exposição de grande qualidade e que bem merece uma visita.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

COISAS DA VIDA (XII)

A vida são dois dias
- Sofia Tello Gonçalves *
Portugal é um país de ditados populares, e por trás desses ditados vem sempre uma realidade, uma constatação de algo, que chega até nós vinda de boca em boca, sabe-se lá desde quando…
Recordo aquele que refere que só damos valor às coisas quando as perdemos. É verdade! A vida vai passando por nós, e, invariavelmente temos sempre uma queixa, algo que não vai bem, situações a mudar…
Raramente nos damos por satisfeitos.
Eu creio que é sempre bom termos objectivos na vida, mas também julgo que a vida deve ser vivida no presente e não sempre a pensar no que não temos e que desejávamos ter, pois, a vida são dois dias! Por isso, é importante pararmos um pouco nos nossos ritmos desenfreados do dia-a-dia e analisarmos o que temos, e, acima de tudo, ter tempo de qualidade para usufruir aquilo com o que a vida já nos presenteou.
A nossa vida pode ser tão rica sem darmos conta, uma família que nos ama, vale tudo! Claro que lá diz o ditado: casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, mas, é importante compreender realmente qual a quantidade de pão que é efectivamente necessária na nossa casa. Estamos sempre a tempo de o fazer, porque mais vale tarde do que nunca.
Passamos anos à procura do supérfluo (e muitas vezes nem o reconhecemos enquanto tal) quando, mesmo ao nosso lado reside o fundamental, esquecendo frequentemente de que nem tudo o que reluz é ouro.
A vida tem um sentido, e infelizmente a grande maioria de nós nunca o compreende, a pessoa realmente cega é aquela que não quer ver.
Apesar de pensarmos sempre que as nossas vidas são eternas, elas perdem-se num minuto, e quando damos conta, se é que damos, o que é que realmente interessa?
Já dizia Antoine de Saint Exupery na sua célebre obra “O Principezinho” que o essencial é invisível para os olhos…
* Licenciada em Serviço Social e Mestre em Saúde Pública

sábado, 8 de novembro de 2008

Nisenses na Touraine (França)




Os rios Loire, Indre e Cher, na região Centro (França) são visitados regularmente por pescadores nisense que, tal como cá, não se cansam de mostrar os seus principais dotes na área de bem pescar em águas interiores.
Os belos exemplares de "Sillures", mostram a categoria dos pescadores nisenses em terras de França.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

EVOCAÇÃO DE CRUZ MALPIQUE (I)

Nos signos da leitura *
Na escola juvenil, é essencial que se faça a leitura em voz alta. Primeiro a fará o professor, para emprestar a faísca da vida ao texto escrito, e para servir como que de paradigma aos principiantes da leitura. Sem leitura expressiva, os textos ficam mortos, ou são apenas fonte de bocejos.
Com essa espécie de leitura se abrirá caminho para uma outra, mais expedita, mais funcional - a leitura silenciosa, aquela que, num relâmpago, nos dá a medula duma página de livro, de uma folha de jornal, de um documento erudito, de um relatório científico, de uma carta.
Quem, na escola, se habituou a fazer a leitura expressiva, com seu quê de teatralizada, ficará, depois, em condições de, numa leitura em diagonal e em silêncio, aprender as ideias mestras de qualquer escrito. O tempo urge, e, por isso mesmo, importa numa rápida olhadela ao escrito se lhe capte a ideia nuclear.
Os livros, se acaso pudessem estabelecer diálogo com os homens, lhes diriam: - Por favor, leiam-nos! Sentimo-nos pagos, se nos lerem! Nada mais triste, para nós, do que morrermos virgens da faca, que nos abra as folhas; nada mais desconsolador do que sermos comidos pela traça, sem que a mão dos leitores nos tenha acariciado, sem que os seus olhos nos tenham percorrido, amorosamente, corpo e alma.
Hoje, muitos livros se compram. Nunca, porventura, o movimento editorial foi tão grande. Nunca, porém, talvez, se lesse menos, em atitude de recolhimento, em meditação profunda, e sobretudo de lápis na mão, para anotar os passos que, depois, devem suscitar o nosso comentário escrito, se, para isso, tivermos aptidões. São tantas as solicitações de fora, fazemos vida tão extrovertida, que quase não nos sobra um momento para nos debruçarmos sobre a experiência alheia passada às páginas de um livro.
Compramos os livros, para que conste que não estamos desactualizados. E compramos, sobretudo, os gritados pela última moda. Mas, ou os pomos nas estantes, ou, apenas, os folheamos página aqui, página além, a correr, muito a correr, como quem vai salvar o pai, da forca.
Está bem que preguemos o olhar na TV. Que aproveitemos de todas as informações que a técnica, hoje, nos pode fornecer, e não são elas, ora, tão poucas! Mas excelente seria que completássemos todo esse mundo de informações, com a leitura recolhida. A extroversão tem de ser - deve ser - seguida de uma descida a nós próprios, e a leitura é o processo naturalmente indicado para uma introspecção em profundidade.
Julien Green quem, no seu Journal, faz esta confidência, relativa ao dia 28-XI-1954: " Chez moi, la lecture est une forme de paresse. Je le sais et ne m´en corrige pas".
Não exagerou. A leitura pela leitura, sem meditação da caneta, correndo sobre o papel em branco, é sempre uma forma de preguiça. A leitura só a podemos considerar activa, na medida em que for pesquisa de problemas, para resolvermos de conta própria. Com efeito, o que mais interessa, ao leitor laborioso, não é a solução acabadinha, que o livro lhe dá, mas os problemas que lhe suscita. O filósofo dizia, no consabido entinema: "penso, logo existo". O leitor, que o é de verdade, dirá: "penso por escrito, sobre o que leio, logo existo".
Toda a leitura será trampolim para darmos o nosso salto a maior distância e profundidade. Mas, esse salto só o poderemos dar, no caso de reflectirmos, a fundo, sobre a problemática que ela nos oferece. E a reflexão profunda exige que a caneta nos partureje do que realmente pensamos sobre o contexto dos livros cuja leitura fizermos. Fora desse perímetro, a leitura é, como nos confidenciou Green, " une forme de paresse ".
Não está bem que se leia apenas um autor, o que equivaleria a só colher uma perspectiva. Para cotejar ideias, importa multiplicar a variedade, embora a todos os autores a gente deva ler com a profundeza que nos for possível.
Se as leituras forem superficiais - ainda que variadas -, caso é para nos jogarem a bisca: multum legendum esse, nom multa.
Certo autor alemão pôs, logo na entrada de um seu livro de ensaios: Nur fur Leser: Só para leitores.
É que há quem pelas páginas do livro passe como cão por vinha vindimada, quem as olhe como cão de loiça, e esse tal não é leitor. Leitor só o é, de verdade, aquele que desce, como diria Rabelais, à "substantifique mouelle " das ideias, e as sabe aproveitar, como trampolim, para também ele pensar de conta própria.
A leitura mais profícua, quando chegamos a certa maturação do espírito, não é a da palavra por palavra, mas a leitura em diagonal, aquela que, num relâmpago do olhar, capta as ideias-mestras da página. E são estas, na verdade, as que importam, para depois serem meditadas por escrito, ou tertuliadas num grupo de pessoas realmente interessadas nas lides do raciocínio.
Não nos parece (desde que se atinja a referida maturação de espírito) que seja de aconselhar a prática recomendada por Emílio Faguet, na sua Arte de Ler: "lire très lentement, jusqu´au dernier livre qui aura l´honneur d´être lu..."
Não. Esse sistema é para principiantes, não para quem, numa rápida espreitadela de página, logo lhe apanha a "substantifique mouelle".
Que a leitura não encha as cabeças apenas de palavras. A pure suffisance livresque gera o psitacismo. Toda a leitura deverá ser tal que desperte o apetite de se passar da letra à picareta, como quem diz da teoria à prática. Quem ler leia para saber; quem souber saiba para praticar.
Tudo deve culminar na prática. É esta o grande teste para se aquilatar dos méritos da leitura.
* Texto inédito, integrado no volume Memórias dum Mestre de Rapazes, organizado por Cruz Malpique e que consta do espólio existente na BPMP.
Extraído do livro de Paulo Samuel "Perfil Ameno de um Escritor Humanista" - Edição da Câmara Municipal de Nisa - 1993