sábado, 20 de dezembro de 2008

COISAS DA VIDA (XV)

Que Deus?
– Sofia Tello Gonçalves *
Posso dizer que sou uma apreciadora de música, sem um tipo de música específico, adepta de vários estilos, desde que com qualidade. Boss Ac é um dos fenómenos do Hip- Hop português, tendo inclusivamente sido já nomeado para a categoria de Best Portuguese Act nos MTV Europe Music Awards. Boss Ac transmite mensagens em algumas das suas canções, que, devido ao ritmo da batida, passam por vezes despercebidas. Apercebi-me disso, há pouco tempo, ao ouvir o álbum “Ritmo, Amor e Palavras” (RAP), que me foi apresentado por uma amiga que eu desconhecia apreciadora de Hip-Hop. Fiquei surpresa ao constatar que determinados conteúdos das suas músicas difundem algo mais do que meras palavras sem sentido, envoltas na cadência de um qualquer compasso improvisado numa mesa de mistura. Convenhamos, muitos estilos musicais, são por vezes alvo de comentários depreciativos por parte de pessoas que, se calhar, nunca ouviram nem uma música, mas são logo rotulados, apenas por serem associados a um determinado estilo. Encontrei neste álbum (RAP) uma conversa com Deus, onde são colocadas diversas questões que nos assolam ao espírito e que dificilmente conseguimos formular. É essa conversa, a letra da música intitulada Que Deus?, que pretendo agora partilhar convosco e, eventualmente, surpreender alguém, como me surpreendeu a mim.
Quem quer que sejas, onde quer que estejas. Diz-me se é este o mundo que desejas. Homens rezam, acreditam, morrem por ti. Dizem que estás em todo o lado mas não sei se já te vi. Vejo tanta dor no mundo pergunto-me se existes. Onde está a tua alegria neste mundo de homens tristes. Se ensinas o bem porque é que somos maus por natureza? Se tudo podes porque é que não vejo comida à minha mesa? Perdoa-me as dúvidas, tenho que perguntar. Se sou teu filho e tu amas-me, porque é que me fazes chorar? Ninguém tem a verdade o que sabemos são palpites. Se sangue é derramado em teu nome é porque o permites? Se me destes olhos porque é que não vejo nada? Se sou feito à tua imagem porque é que durmo na calçada? Será que pedir a paz entre os homens é pedir demais? Porque é que sou discriminado se somos todos iguais? Porquê que os Homens se comportam como irracionais? Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais? Porquê que a Paz não passa de ilusão? Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê? Peço perdão pelas perguntas que tem que ser feitas. E se eu escolher o meu caminho, será que me aceitas? Quem és tu? Onde estás? O que fazes? Não sei. Eu acredito é na Paz e no Amor. Por favor não deixes o mal entrar no meu coração. Dou por mim a chamar o teu nome em horas de aflição. Mas tens tantos nomes, és Rei de tantos tronos. E se o Homem nasce livre porque é que é alguns são donos? Quem inventou o ódio, quem foi que inventou a guerra? Às vezes acho que o inferno é um lugar aqui na Terra. Não deixes crianças sofrer pelos adultos. Os pecados são os mesmos o que muda são os cultos. Dizem que ensinaste o Homem a fazer o bem. Mas no livro que escreveste cada um só leu o que lhe convém. Passo noites em branco quase sem dormir a pensar. Tantas perguntas, tanta coisa por explicar. Interrogo-me, penso no destino que me deste. E tudo que acontece é porque tu assim quiseste. Porque é que me pões de luto e me levas quem eu amo? Será que essa é a justiça pela qual eu tanto reclamo? Será que só percebemos quando chegar a nossa altura? Se calhar desse lado está a felicidade mais pura. Mas se nada fiz, nada tenho a temer. A morte não me assusta o que me assusta é a forma de morrer. Quanto mais tento aprender, mais sei que nada sei. Quanto mais chamo o teu nome menos entendo o que te chamei. Por mais respostas que tenha a dúvida é maior. Quero aprender com os meus defeitos, acordar um homem melhor. Respeito o meu próximo para que ele me respeite a mim. Penso na origem de tudo e penso como será o fim. A morte é o fim ou é um novo amanhecer?
* Licenciada em Serviço Social e Mestre em Saúde Pública

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

COISAS DA VIDA (II)

Igualdade entre os Sexos
- Sofia Tello Gonçalves *
Na crónica passada, através de uma sucinta resenha histórica, abordei as relações assimétricas de poder entre o homem e a mulher, porque história é contar aquilo que já fomos e já fizemos, condição fundamental para analisarmos o que somos e o que fazemos agora. História é vida já vivida.
E, quando falamos da violência contra as mulheres, temos sempre que falar na nossa história. Somente desde a década de oitenta, é que se assistiu ao crescente reconhecimento internacional sobre a importância da violência contra as mulheres. Hoje em dia, já existem recomendações, resoluções, declarações das Nações Unidas, Conselho da Europa, União Europeia; as Organizações Governamentais e as Organizações Não Governamentais já organizam Seminários e Conferências para debater este assunto, mas, nem sempre assim foi.
Durante longos anos, a violência contra as mulheres foi considerado um assunto menor, não necessitando de qualquer tipo de intervenção. Contudo, a realidade em que vivemos não permitia mais esconder a presença de mulheres feridas no seu corpo e alma.
A realidade actual do nosso país, apesar do que muitos de nós pensamos, mostra que também em Portugal as mulheres continuam a ser particularmente vulneráveis à pobreza, devido à falta de formação qualificada (baixos níveis de escolaridade e elevado grau de analfabetismo), precariedade do trabalho, auferirem salários mais baixos, exercerem um tipo de trabalho não remunerado (trabalho doméstico). Reconhece-se que a violência de que são alvo as mulheres demonstra que ainda existem desigualdades estruturais entre os géneros, que persistem ainda evidentes assimetrias quanto a oportunidades, direitos e deveres, que urge corrigir.
Estes dados foram recolhidos no II Plano Nacional para a Igualdade (2003-2006), sublinho, no II Plano, e ainda tanto há para fazer...
Porém, também se constata que o Estado Português já chama a si a intervenção nesta área, congratulo-me e orgulho-me por isso, e espero que quando se proceda à avaliação deste II Plano, as conclusões encontradas demonstrem que já estamos no curso da mudança; demonstrem que a mulher portuguesa – franja maioritária da nossa população – caminha no sentido da plena igualdade, porque somente assim, se caminhará no sentido de um verdadeiro desenvolvimento sustentado.
* Licenciada em Serviço Social e Mestre em Saúde Pública

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

NISENSES ILUSTRES

Dr. Francisco da Graça Miguéns
O doutor Francisco da Graça Miguéns, médico notável e bondoso, nasceu em Nisa, a 2 de Abril de 1854, filho de Brás Miguéns Beato e de Maria da Cruz. Exerceu durante 34 anos com grande amor, sentido profissional e exemplar dedicação à sua terra e às populações do concelho, o cargo de médico municipal.
Frequentou o Liceu de Santarém onde se revelou como um aluno brilhante. Formou-se em Medicina e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo conquistado diversos prémios e distinções. Após a obtenção do seu diploma universitário, foi convidado pelo Corpo Docente da Universidade para prosseguir como professor de Medicina naquele prestigiado estabelecimento de ensino, convite que declinou, tendo preferido voltar à sua terra, sendo nomeado médico municipal a 11 de Agosto de 1880, tomando posse do cargo nesse mesmo dia.
Desde Agosto de 1880 e durante 34 anos, o doutor Francisco da Graça Miguéns, trabalhou com desvelo, bondade e abnegação, mostrando sempre a mesma disponibilidade para tratar dos seus conterrâneos e acudindo a todas as situações para que fosse solicitado, tanto de dia como de noite.
Tendo em conta os serviços relevantes prestados ao concelho, a Câmara Municipal decidiu, em 24 de Julho de 1919, atribuir o nome do ilustre médico e benemérito à antiga Rua Direita e colocar o seu retrato no salão nobre dos Paços do Concelho, de onde foi retirado por expressa solicitação do próprio clínico.
Vítima de doença, faleceu a 10 de Outubro de 1933.
Foi homenageado a 29 de Maio de 1945 com a inauguração de um busto, belo e simples, no Jardim Municipal de Nisa, que fica a recordar às gerações de nisenses, a figura humilde e bondosa do Dr. Francisco Miguéns.

Dr. Francisco da Graça Miguéns

Viveu a sua vida sossegada,
Entregue ao bem e ao culto da ciência,
E quando a morte veio - a consciência
Tinha a pureza e a luz duma alvorada.

Sua alma foi, na terra, a enamorada
De tudo o que há de belo na existência,
Do Ideal atinge a região imaculada.

E sempre em torno dele, suavemente,
Um murmúrio de prece esvoaçou:
- Era o coro de bênçãos, puro e ardente,

De tantas criancinhas que afagou,
De tanto pobrezinho e tanto doente
Que o seu coração de oiro consolou.
Dias Loução (12/10/1933)
- Artigo publicado no "Jornal de Nisa"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Coisas da Corte das Areias (XCV)


Santa Luzia: Um espaço a requalificar
É Motta e Moura quem o refere a pág. 106 da Memória Histórica da Notável Vila de Nisa:
Outra egreja bastante nomeada e devoção nos tempos antigos, era a do Espírito Santo dos Frades, conhecida geralmente pela capella de santa Luzia; era edificada nos subúrbios d´esta villa, no largo atraz da Fonte do Frade junto do caminho de Montalvão; antiquíssima, com a porta principal d´entrada, e arco da capella mor de cantaria e forma gothica, pelo mesmo gosto e architetura da de Santo António”...
(...) “ e foi esta instituição, que a perdeu, porque abolindo nosso tio fr. João Pedro Themudo Cabral, vigário da matriz, a capella por alvará de 26 de Setembro de 1797, apropriou-se da egreja, tirou-lhe os habitadores, que levou para casa estranha e alheia, onde estão, e começou-lhe a demolição, que seu herdeiro concluiu aproveitando-lhe a cantaria em umas casas que edificou, e n´uma horta, em cuja porta se vêem os pedestais da capella mor; não restando já no logar, em que estivera, vestígio algum, por onde conste a sua existência, nem ao menos uma cruz alevantada attesta aos que por ali passam que n´aquelle local fora outrora a casa de Deus”.
Era um espaço agradável, airoso, este, onde no passado se erguia a Igreja de Santa Luzia, coabitando com a então elegante Fonte do Frade por um período de 71 anos, vindo aquela a ser demolida como atrás se refere, em 1797, e a Fonte do Frade transferida em 1953, 156 anos depois.
Agora, no local da igreja, resta o espaço, público, feito lixeira e, triste sina a dos fontanários de Nisa, do majestoso conjunto como era o da Fonte do Frade, o que dela resta, ali está, triste e envergonhada, na Praça do Município, sentindo-se nua, porque despida dos adornos que a enfeitavam, como era o chafariz original, mais curto, não o que lá está agora, estranho, e também privado, em frente, do “pequeno poço – a que chamavam coberta – e uma ponte sobre o ribeiro que corre das hortas próximas”. (1)
Era um local muito lindo, aquele, como bonito era o pontão, com arco de volta redonda, o maior, e um outro pequeno a que os entendidos chamavam de falso arco porque não de volta redonda. O ribeiro que sob o dito corria fazia-o à superfície e não escondido como agora, como que envergonhado de exibir, coisa vulgar naqueles tempos, as limpas e puras águas do Ribeiro das Romãs, de seu nome, nascido na Tapada dos Casarões (actual Zona Industrial) lá para os lados do campo da bola, que é hoje do Nisa e Benfica mas já foi do Sporting de Nisa.
Também no Largo da Câmara e junto à fonte não estão os lavadouros de então, nem se ouve o bulício das mulheres da “vila” lavando a roupa, nem tão pouco lá estão as pedras tipo prato de sopa, gastas pelo constante uso, como poiso dos cântaros de barro, pedrados ou não com as brancas pedrinhas de quartzo da Serra de S. Miguel (Nisa).
Corre por aí, como certo, que brevemente irão “mexer” no sítio da Fonte do Frade, em particular nos lavadouros públicos. Se assim for será uma boa oportunidade para devolver ao local um pouco da muita beleza e dignidade que já teve. Proposta até já houve, faz agora 4 anos. Aqui se reproduz: Proposta/contributo para uma intervenção
"Considerando que a participação dos cidadãos na vida da comunidade pode e deve representar uma mais valia para a nossa vivência democrática, os proponentes abaixo-assinados levam ao conhecimento da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Graça (Nisa) uma proposta / conjunto se sugestões, a enquadrar tecnicamente, tendente à Requalificação do Espaço Fronteiro ao Lavadouro Municipal, no local conhecido como Alto de Santa Luzia, na área da referida freguesia.
Em linhas gerais, a serem devidamente explicadas em reunião do executivo, a intervenção visaria humanizar toda a área em tempos afecta à ermida de Santa Luzia, tornando-a um espaço público de lazer, descanso e convívio, aprazível e ao mesmo tempo com significado histórico, pelo que designaríamos o conjunto de pequenas intervenções de “Memorial”.
Tal designação resulta da ideia de implantar neste espaço, “reciclando-os” e impedindo que deixem de fazer parte da memória histórica de Nisa, diversas estruturas e materiais em ferro e granito, que irão ser desmantelados com as obras em curso na Praça da República, nomeadamente, os candeeiros em ferro fundido, a gradaria de ferro e as escadarias do jardim público (e possivelmente, as próprias floreiras) bem como os bancos em granito, antigos, existentes no Rossio, nas imediações do Calvário.
Estes materiais seriam aplicados na requalificação que propomos para este espaço, tornando quase irrisório, face à mais valia urbanística e ambiental daí resultantes, os custos da intervenção. Evitaria, por outro lado, que um espaço público e devoluto, na entrada da vila e, consequentemente do centro Histórico de Nisa, passasse, paulatinamente, a funcionar como lixeira, situação que a nosso ver em nada abonaria em favor de uma entidade pública como a Junta de Freguesia.
Deixamos esta proposta à consideração dos órgãos eleitos da freguesia de Nossa Senhora da Graça, cientes de, modestamente, termos procurado contribuir para a resolução de um problema que urge resolver. Juntamos, em anexo, desenho exemplificativo.
O proponente: João Francisco Lopes"
Uma espera de quatro anos
Em reunião ordinária da Junta de Freguesia de 10/8/2004 foi a proposta aprovada por unanimidade (Deliberação nº 106) e enviada à Câmara Municipal de Nisa em 16/8/2004. Assinavam o documento o presidente da Junta, Joaquim Martins Rebelo, e os eleitos Maria Natária Grácio e João José Cabim Malpique Rufino.
Mas, voltemos ao início desta crónica, voltando a citar Motta e Moura quando nos diz, referindo-se à capela: (...) e começou-lhe a demolição, que seu herdeiro concluiu aproveitando-lhe a cantaria em umas casas que edificou, e n´uma horta, em cuja porta se vêem os pedestais da capella mor...”
Pois é, e se aquele arco, que está numa horta, “arco triunfal” como lhe chamou um distinto arqueólogo nosso conhecido, fosse mesmo o da Igreja de Santa Luzia, como admite um nosso conterrâneo, professor de história, seguindo com toda a lógica, um percurso mental no tempo, envolvendo datas, factos e pessoas?
Mas, admitindo de igual modo, não ser este arco o do altar-mor de Santa Luzia, não ficaria bem a sua implantação ao cimo da escadaria proposta para aquele espaço? Não seria devolver ao local, como bem o diz Motta e Moura, algo que “ateste aos que por ali passam, que naquele local fora outrora a Casa de Deus?”.
Isto, para já não falar na cruz de pedra que lá existia, onde está o arco, mas não existe já, encimando uma fonte, fonte que tem um nicho, nicho que já hospedou uma imagem mas que entretanto mudou de “hotel”.
Nisa está a expandir-se para aqueles lados, há vivendas em redor envolvendo o “Alto de Santa Luzia”, também por isto se justifica a intervenção proposta, tornando o sítio, um “espaço público de lazer, descanso e convívio, aprazível e ao mesmo tempo com significado histórico”.
Mais, no local e a propósito até ficaria bem painel informativo indicando aos turistas, que com certeza chegarão um dia, que aquela via que segue para nascente, não só nos conduz ao pontão do Vale da Boga e a Montalvão, mas igualmente nos leva, passeando, a estrada romana da Ammaia que, com esta designação, provem de S. Salvador da Aramenha (Marvão) e segue até Valhelhas (Guarda).
A mesma via nos leva também ao encontro da Carreira velha, tão velha que já em 1412 (600 anos) assim era chamada, e ao recém-descoberto Menir da Fonte do Cão (2).
Também a outra via que segue para norte, o nosso velhinho caminho da Senhora da Graça, teria honras de divulgação, informando que aquele “carreiro” é nada mais nada menos que o Caminho de Santiago (Caminho do Interior) que provindo do Algarve, seguia, nos tempos medievais, até Santiago de Compostela, na Galiza, seguindo, após cruzar com a Carreira Velha, pela Senhora da Graça, Ribeira de Nisa, Monte Cimeiro, procurando o Tejo que galgava em Vila Velha de Ródão.
Já agora, para que conste
No Plano Plurianual de Investimentos para 2005 a Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Graça, entre outras intervenções, propunha como “Arranjo paisagístico, a Requalificação da Fonte Seca e santa Luzia, frente à Fonte do Frade.”
Força que a obra vai ficar linda, barata, necessária e ainda por cima preserva o passado, a memória das nossas gentes, e para o bem da nossa terra, fantasmas se os houver há que sacudi-los para trás das costas.
Notas
(1) Monografia da Notável Vila de Nisa – José F. Figueiredo, pág. 231
(2) Descoberto pelos arqueólogos de Vila velha de Ródão, João Caninas e Francisco Henriques. -Publicado no "Jornal de Nisa" - nº 262 - 10/9/08