sábado, 18 de junho de 2016

Poetas da nossa terra: O ti António Branco (o Forneiro)

Um hino à natureza
Este homem merecia um livro. A sua poesia, sobre o campo, as flores, a faina agrícola, a vida social e cultural de Montalvão, a sede de justiça e de progresso, as desigualdades económicas e sociais, são um "monumento" escrito que retrata muito do quotidiano das terras da raia e de um Portugal cinzento e obscurantista sobrevivendo sob uma das mais negras e prolongadas ditaduras do século XX . O Ti António Branco, o Forneiro,  poeta popular, nascido, criado e falecido em Montalvão, em décimas plenas de força e pujança, ou, mais nostálgicas, cheias de lirismo e com tons musicais que nos remetem para o bucolismo dos campos, constituem das mais belas páginas escritas sobre Montalvão.
Do trabalho nos campos de Montalvão e Salavessa, onde se avista a Beira e a Espanha, arrancou o ti António Branco, as estevas para alimentar o forno, seu principal ganha-pão, mas também a experiência de um "diálogo" permanente com a mãe Natureza, que ele registava na memória e recitava à noite, em versos de "quarenta pontos" (décimas), nas tabernas, entre um e outro copo do tinto, que "premiava" as cantigas ao desafio.
A Primavera
Na Primavera de Flores
Vestem-se os campos de gala
Alegria dos pastores
Canta o canário na jaula
I
Canta o rouxinol no prado
No meio da árvore sombria
Canta alegre a cotovia
Canta o triste encarcerado
Canta o cuco, brinca o gado
Alegram-se os lavradores
Mudam as aves de cores
Quando andam fazendo o ninho
Canta todo o passarinho
Na Primavera de Flores
II
Canta alegre o jardineiro
Por ver as flores a brilhar
Canta o lavrador a lavrar
E na quinta canta o quinteiro
Canta o melro no loureiro
A gaivota sobre a vala
Canta quem tem boa fala
Canta até quem a não tem
Cantam os Anjos também
Vestem-se os campos de gala.
III
Só tu vens abastecer
Ó Primavera real
Pastos para tanto animal
Pão para a gente comer
Muitas lãs para fazer
Fatos de todas as cores
Tu com essas tuas flores
Sustentam muito vivente
Cresce o leite de repente
Alegria dos pastores.
IV
Quando me quero levantar
Em manhã de Primavera
Debaixo da atmosfera
Não ouço senão cantar
Grilos com as asas a tinar
A cotovia na alta escala
A andorinha nem se fala
Dá-nos gosto o rouxinol
Logo assim que nasce o sol 
Canta o canário na jaula.

António Branco

domingo, 5 de junho de 2016

BAILE DOS TREMOÇOS: Santana revive a tradição

Era sexta-feira, dia 13, véspera de casamento na aldeia do Arneiro (Santana-Nisa).
A coincidência do dia e da data, sempre associadas a “dias negros e de azar” para os mais supersticiosos, foi, pelo contrário, celebrada como um dia de festa e o reviver de tradições.
No Largo dos Pelómes, o principal da aldeia (este topónimo, noutros sítios pronuncia-se Pelames e terá a ver com as indústrias de curtumes, muito vulgares nas terras do interior), o povo juntou-se e recordou as despedidas de solteiro dos anos 50 e 60, quando o Baile do Tremoço trazia toda a população para a rua e fazia-a compartilhar da festa comunitária, promovida pelos pais dos noivos e que era a derradeira noite de solteiros dos jovens nubentes.
Tal como há 50 anos, houve música a rodos, não com o acordeonista ou o tocador de gaita de beiços como em tempos mais recuados, mas com um grupo de música popular, em cima de um palco improvisado, que tocou e cantou até fora de horas e a que se juntaram muitos artistas do povo, homens e mulheres, que recordaram, em uníssono, as modas de antigamente.





Para uma noite de festa tradicional, não faltaram os tremoços, o vinho e os bolos, distribuídos pelos pais dos noivos. E a dança, o “bálho” popular que inundou de alegria e contentamento todos os intervenientes nesta magnífica jornada de festa, convívio e espírito comunitário, ainda bem patente na freguesia de Santana e não apenas na utilização e partilha dos “fornos do povo”.
Para que o registo ficasse completo, nem sequer faltou a televisão e o Baile do Tremoço, no dia seguinte, através dos canais da SIC, percorreu o país e o mundo, fazendo lembrar que, apesar da crise e da perda de confiança, os portugueses ainda encontram motivos para sorrir, juntar-se e festejar, unidos por um ideal maior e que neste caso se chamou “reavivar da tradição”.
in "Jornal de Nisa" - nº 258- 25/06/08