terça-feira, 8 de novembro de 2016

S. SIMÃO: CONTOS DA ALDEIA (1)

O Sacristão Isaías e o Padre Bonifácio
Ninguém por estas redondezas, tinha um coração maior que o mestre alfaiate. Sempre teve a casa cheia de gente, tagarelando, falando das dificuldades da vida, enquanto ele ia talhando um fato, dando uns pontos num casaco ou ajeitando as bainhas de umas calças de surrobeco ou pondo umas brasas no ferro de engomar. Aprendizes da arte de alfaiate tinha-os em diversos escalões etários, onde cada um ia desenvolvendo e demonstrando as suas aptidões, tendo como principal objectivo, a fuga à picareta e à enxada.
Toda a gente gostava dele e ele gostava de toda a gente. Nunca se zangava, fosse com quem fosse, mesmo quando algum freguês já sem paciência, por não lhe ter fato pronto, o tratava mal, vendo jeitos de ter que ir a ser padrinho com o fato velho.
Como o já lendário e velhote sacristão, foi chamado à presença divina, sem ninguém esperar, o senhor padre Bonifácio ficou sem saber, a quem havia de recorrer para o ajudar nas coisas do céu, pois a maioria do seus paroquianos, mourejavam de sol a sol, no campo, lavrando, semeando, ceifando e debulhando, durante uma semana inteira, folgando apenas aos domingos, pela tardinha.
A única pessoa, depois de muito pensar, que ele encontrou, foi o mestre alfaiate.
Logo que teve oportunidade, entrou-lhe pela porta dentro, depois de uma saudação muito amistosa, disse-lhe ao que o ali o levava.
- Mestre alfaiate, como sabe faleceu há poucos dias, o senhor Pires, amigo e antigo sacristão. -Venho convidá-lo para exercer essa função, pois acho que o senhor é a pessoa indicada e das únicas que está quase sempre disponível, trabalha por conta própria, tem um bom feitio e todo o povo acha que é a pessoa indicada, para o desempenho desta função.
- Oh, senhor prior, peço-lhe desculpa, mas não posso aceitar, não tenho jeito para essas coisas e sinto até algumas dificuldades em acompanhar um funeral.
-Vai ver que, é como todas as coisas, uma questão de hábito. E, além disso, a função do sacristão, não é só ir à frente num funeral com a cruz.
- Além das missas e funerais, temos baptizados e casamentos, onde como sabe, somos sempre convidados de honra, para a mesa grave.
-Pois é, mas eu nem sequer sei rezar um padre-nosso ou uma Ave - Maria.
-Isso ensino-lhe eu, em dois tempos, retorquiu o padre serenamente.
Mestre alfaiate, com estas razões, apresentadas pelo senhor prior ficou indeciso, sem saber para que lado havia de tombar.
Como gostava de beber uns copinhos, e o senhor prior também, talvez não fosse má ideia aceitar e tinha a impressão que se iam dar muito bem.
Quando o senhor prior o visitou pela segunda vez e lhe começou a conversa, ainda arranjou alguns argumentos, mas de fraca convicção, acabando por aceitar.
Sempre foi um sacristão desajeitado, não tinha mesmo vocação para tal função. Enganava-se nos procedimentos, as palavras não lhe saíam com a devida fluência, mas tudo lhe era desculpado devido ao seu bom feitio.
Em Dezembro e Janeiro, em todos os lares da aldeia, era um ritual antigo, proceder-se à matança do porco e à cura dos enchidos respectivos.
Chouriços, linguiças morcelas, paio, farinheiras, mouras, cacholeiras,enfiados em varas compridas no fumeiro, por cima do lume de chão, todos se abanavam quando o calor e o fumo lhes chegavam por perto. Era uma boa altura para fazer uma visita, aos paroquianos mais abastados, quer na fé quer no fumeiro, beber uns copinhos, sem ser de caixão à cova e ainda levar qualquer coisa pró caminho. Era Janeiro, já bem tratados e aviados, em casa da senhora Maria dos Santos, esta enquanto se foi despedindo, escolheu do melhor que tinha no fumeiro, cortou a baraça a duas peças de cada qualidade, meteu-as numa típica bolsa de pano e disse ao senhor prior:
- Faça-me um favor senhor padre Bonifácio, leva esta oferta para a festa do Mártir Santo, em Nisa, que é brevemente.
- Como queira D. Maria, agradeceu e retirou-se, com a “malvada” cheia e os “cágados” quentes.
Durante a semana foram saboreando as iguarias, com um tinto da adega, nunca mais se lembraram da festa do Mártir Santo, mas quando o material ia quase de resto, o sacristão lembrou-lhe: -Senhor prior e o Mártir Santo? Eu tenho a certeza que ele não é apreciador de carne de porco, é preciso é que D. Maria não se vá lá confessar.
Na oficina de mestre alfaiate, reunia-se toda a população, em especial nos dias de chuva, quando não era permitido o trabalho do campo. Conversas sobre as coisas mais simples, que se passavam na aldeia, onde qualquer acontecimento servia de tema e de discussão.
-Isto é que vai aí um tempo, chuva e mais chuva, anda meio Pé da Serra constipado, afirmou o “ti” Artur, homem que mourejava, desde que o Sol nascia, até se por, sendo a chuva o único elemento, que lhe proporcionava estar de costas direitas.
Fosse Domingo ou dia Santo, nunca pôs as botas numa taberna.
-Não bebem, afirmou o mestre alfaiate, se bebessem…
E verdade se diga, nem mestre alfaiate, nem o senhor prior, nunca nas suas vidas se constiparam.
- Essa é boa! Disse o Baptista. Olha, o “barbeta”, chega-lhe bem e ainda ontem cá veio o doutor Carlos Gonçalves a vê-lo. Há dois dias que está de cama.
- Mestre alfaiate, tirou o dedal, deixou ficar a agulha a marcar a manga do casaco, olhou os presentes e afirmou categoricamente! -Isso foi ele que ficou algum dia sem beber.
Risada geral, com alguns comentários de caçoada.

José Hilário - 

ARNEIRO (Nisa): Passeio "Tejo - O Rio que nos Une"


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

ALPALHÃO: Cinema aos Sábados no Centro Cultural


MEMÓRIA: O Senhor Simplício

Um dos últimos Contrabandistas de Montalvão
No dia 1 de Novembro de 2009, Dia de Todos os Santos, faleceu, no Hospital de Cascais, o veterano montalvanense, senhor Simplício António Belo, com 98 anos de vida.
Consigo parte uma memória viva dos tempos difíceis que se viveram no século XX, neste Alentejo pobre e isolado, à mercê dos grandes senhores da terra que impunham as suas regras na base do medo. Partiu este homem bom, com que gostei de partilhar algumas conversas desses tempos difíceis que foram os do contrabando em Montalvão.
Em jeito de brincadeira tinha-lhe prometido passar para um gravador digital todas as suas imensas memórias, mas por falta de tempo (meu) nunca tal aconteceu, e assim hoje partiu a última memória viva deste Montalvão, esquecido e apagado pelo tempo.
Para conseguir aquilo que a terra teimava em não dar, tal como tantos outros jovens da época, aproveitou o vigor de outros tempos para carregar fardos de 40 e 50 quilos pela calada da noite, palmilhando trilhos de perigo entre Portugal e Espanha. Perdeu a conta às vezes que levou tabaco para "Casalinho" (Espanha) ou trouxe bacalhau para Portugal. Chegou a passar de tudo, desde burros a sabão, enfrentando guardas-fiscais e "carabineiros", passava as noites num autêntico "leva e traz".
Estes homens e mulheres que a vida vai levando lentamente, não podem partir sem deixar na nossa memória colectiva o seu testemunho sempre presente de como foram as suas vivências noutros tempos. E sinto que fico em "divida" perante este homem, por não ter feito o trabalho de recolha que se imponha para memória futura.
Devo dizer que também já se impunha uma estátua dedicada a este conjunto de montalvanenses que dedicaram uma vida (ou parte dela) ao contrabando, afim de perpetuar as vivências difíceis porque passaram os nossos antepassados.
E assim desta forma deixo a minha homenagem e este e outros Simplícios, pelo exemplo de coragem e de luta pela vida.
José Leandro Lopes Semedo - 5/11/2009

NISA: Leituras e Memórias - Biblioteca ao Encontro das IPSS


NISA: Caminhada "De Nisa ao Tejo pelas Portas de Ródão"


NISA: Evocação e celebração do Santo André


NISA: Magusto popular na Praça da República